quinta-feira, 31 de julho de 2014

CAUSOS – 2º DA SÉRIE


VOGAL

Na Justiça do Trabalho, até 1999, além do juiz concursado e de carreira, havia juízes leigos, em todos os graus de jurisdição. Por isso, as atuais Varas denominavam-se Juntas de Conciliação e Julgamento. Esses juízes leigos denominavam-se vogais. Na Constituição Federal de 1988, eles passaram a ser denominados juízes classistas. Então, ficaram muito contentes, porque, segundo pensavam, igualaram-se aos juízes de carreira.  Isso mais se consolidava, na medida em que a imprensa, muitas vezes mal informada, quando tratava de um classista dizia simplesmente juiz do trabalho. Então, eles se aborreciam quando alguém os chamava de vogais.
Numa audiência em Belo Horizonte, depois de uma longa discussão sobre um acordo muito difícil, um classista se desentendeu com um advogado e ambos ficaram muito nervosos, necessitando de minha interferência para que a discussão não terminasse em briga. O acordo saiu, mas o advogado ainda estava muito bravo.

Ao sair da sala, lançou um olhar raivoso para o classista e disse, bem alto, como um xingamento: SEU VOGAL!
Todos riram e o advogado acabou por rir também, descontraindo o ambiente.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

SIMPÁTICO OU SIMBÓLICO?




  Hoje (7/2/2014), saí para minha caminhada matinal. A preguiça foi tanta que a caminhada não foi tão matinal assim. O sol já ia alto, forte e de uma quentura de amedrontar.  De repente, um ventinho frio arrepiou-me. Prenúncio de chuva, pensei. Andei algumas quadras sob aquele vento gostoso, providencial para arrefecer o calor que assola nosso bairro esses dias, quando uma chuva torrencial desabou.

O calçadão estava lotado. Num minuto, esvaziou-se. Uns se esconderam sob marquises, outros entraram em quiosques, alguns, sob enormes guarda-sóis, outros voltaram pra casa correndo. Enfim, todo mundo fugiu da chuva.
Eu, alegremente, continuei a caminhada, bendizendo aquela chuva maravilhosa. Toda ensopada, era alvo de alegres brincadeiras do pessoal fugido e escondido da chuva, ou seja, eram todos simpáticos. Por que seria, se nos dias anteriores, caminho, caminho, encontro n pessoas no trajeto, nem sequer um cumprimento recebo? Minha caminhada na chuva seria simbólica?
Interessante que eu me lembrei de que acontecia a mesma coisa quando praticava corrida. Ainda não era tão comum as pessoas comuns praticarem caminhadas ou corrida. As academias não eram “obrigatórias” como hoje. Só os atletas profissionais dedicavam-se aos exercícios físicos com afinco. Eis porque eu era sempre parada nas ruas, com brincadeiras, do tipo, vai, Joaquim Cruz!... Vai correndo assim pra onde? Está correndo da polícia? Ou parando o carro ou a bicicleta e oferecendo carona, na brincadeira. Uma simpatia só. E, muitas vezes, correndo na chuva, brincavam comigo, como hoje. Paravam para ver minha cara (acho que pensavam que eu era meio doida) e brincavam: Vai derreter! E quando participei de competição, então? Ganhei medalha de ouro na minha categoria, em corrida de rua de dez quilômetros, e todos me aplaudiam. Depois da competição, chegando ao clube, todos brincavam, riam, falavam comigo.
Simpatia é uma palavra de origem grega.  É formada pelo prefixo sym (juntamente, ao lado de, em favor de, ao mesmo tempo) e pathéia (aquilo que se experimenta em relação às paixões da alma). Então, simpáticas seriam pessoas que nos atraem e conquistam pelo seu carisma, pela sua personalidade ou pela sua postura diante da vida.
Segundo Padre Fábio de Melo (Quem me roubou de mim?), símbolo é toda e qualquer realidade que constrói uma ponte por onde podemos alcançar o outro lado. A palavra vem do grego, sym-ballein, que significa reunir, juntar. E o ato de reunir ou juntar, efetivamente, constrói pontes.
Aí, fui juntando os pontos, construí a ponte para entender por que todos faziam alegres brincadeiras comigo. Eu, naquele momento, era um símbolo. Símbolo talvez da coragem de enfrentar aquela ventania. A minha postura de correr na chuva conquistou aqueles caminheiros que ali estavam. Então, tornei-me simpática por estar fazendo algo inusitado e, ao mesmo tempo, um símbolo para aquelas pessoas que estavam escondidas da chuva.
É interessante observar que todos nós procuramos um ídolo, um símbolo. Seja de alegria, seja de coragem, seja de beleza, enfim, todos querem ser iguais a alguém.  Por isso, brincamos quando vemos alguma pessoa que, por um desses motivos, admiramos: Quando crescer, quero ser igual a você. É uma coisa boa, mas  perigosa, aliás, como tudo na vida. É que sobre a sociedade moderna paira uma sombra. A sombra da falta de identidade, a sombra da ausência de referências.
As crianças de hoje têm ídolos do bem? Mais uma vez, a questão da educação, uma das coisas mais importantes na vida. Pais que se preocupem com os filhos e professores que ensinem seus alunos a pensar, que lhes mostrem um mundo que pode ser do bem, mas que pode ser do mal, dependendo da escolha de cada um.  E só pode escolher quem pensa.
Voltando à minha ousadia, retornei a casa ensopada, mas com o coração leve, por ter tido a ventura de andar na chuva, quando todos fugiram e na sensação (já vem aí a vaidade assumida) de que fui símbolo por um dia, mesmo na minha velhice.

Maria Francisca, fevereiro de 2014.

 

 

 


sexta-feira, 11 de julho de 2014

CADÊ A COPA?



Mudou algo em sua vida?
 – Hã? Hã?
O vexame de ontem.
Ah, não! Não mudou nada.
Pois é.  Sigamos em frente...

Foram conversas que tive ontem, muitas vezes, nas minhas andanças pelo quarteirão, indo ao dentista, costureira, feira etc. O povo, perplexo. Reclamando sempre daquele fiasco da seleção. E eu, na minha, nem ligava. Queria que o Brasil ganhasse. O povo merecia isso, pelo menos, mas daí a ficar triste, eu, hein?
 
Há tanta coisa ruim no Espírito Santo, no Brasil e no mundo que é até um despropósito eu ficar triste porque o Brasil perdeu um jogo e a esperança do hexa.  Os jornais noticiaram, hoje, que um médico no ES precisa atender, em média, a cada 12 horas, 200 crianças. Não há pediatras. Os hospitais tanto públicos como privados estão sem plantão pediátrico por falta de médicos. Tem cabimento? Há escolas públicas onde as crianças ainda não receberam o uniforme. E estamos em julho. Outras escolas há onde alunos que estudam em regime de tempo integral não têm espaço dentro da escola.  Que tempo integral é esse?
 
 E eu ainda vou me entristecer com um timezinho que só pensa no dinheiro, não joga junto sabe-se lá há quanto tempo e, portanto, não pode ser uma equipe?  Além de tudo, apequenado pela falta de um jogador que se machucara e dá um “branco”, como reverberou o técnico? Será?
E há outra coisa: ano de eleição. Já imaginei o povo não dando bola pra mais nada depois do tal de hexa. Então, que se dane essa vontade de hexa. O povo não precisa de hexa. O povo precisa de educação, saúde, saneamento básico, alimento, atenção, fraternidade. Se essa alegria com o futebol não turvasse os demais objetivos, tudo bem, mas ninguém mais pensa em nada quando um jogo da seleção está em evidência. Por isso, já tachei o futebol de ópio do povo.
Quem falou que não ia ter copa? Os mesmos que criticaram estavam lá querendo ingresso, vestindo a camisa amarela e torcendo pelo Brasil. Torcer pelo seu país é característica de um povo que ama sua pátria,  mas não a ponto de virar a casaca dessa forma. Um dia, na rua, fazendo baderna, para não ter copa. No outro, cantando nas portas de estádios, esmolando ingressos.
 
E no dia do jogo do Brasil com Alemanha, nosso vexame maior, fui a diversos lugares. Parecia que o povo estava doido. Uma aflição...Tomei vários esbarrões no supermercado. Nem olhavam para pedir desculpas, como se tivessem esbarrado num cabo de vassoura. Os empregados mal-humorados, talvez porque não iriam ver o jogo em casa. Sabe-se lá.  O trânsito um horror. O nervosismo no ar.  É ópio ou não é?
Agora, parece que o povo acordou. A derrota para a Alemanha serviu pelo menos pra isso. Então, que a copa acabe depressa para o Brasil voltar à rotina.
Maria Francisca – julho de 2014.

sábado, 5 de julho de 2014

Pega Ladrão



Morei em Salvador durante certo tempo, num enorme condomínio no Bairro Caminho das Árvores. Era exatamente atrás do Shopping Iguatemi. Para chegar ao nosso prédio, passávamos dentro do shopping, subíamos uma escadinha externa, num morro, por puro comodismo, claro.
E aquela escadinha era ótima, porque, além de encurtar em muito nosso caminho, ainda nos proporcionava momentos de lazer, no shopping, na volta do trabalho. Muitas vezes, retornando cansada, entrava no shopping, para alcançar o atalho para meu prédio, quando me deparava com saraus, orquestras e ficava ali parada, apreciando tudo e chegava a casa descansada da lida, do transporte público e do trânsito caótico, já naquele tempo.

Pois bem. Eu exercia a função então denominada Fiscal do Trabalho. Num início de semana, ia eu tranquilamente subindo a rua para chegar a uma empresa na Praça da Sé, onde faria uma fiscalização de rotina. Segurava com força a minha pesada pasta com processos que teria que analisar e pastas e fichas de empresas que teria que visitar. Tudo em papel. Não vivíamos, ainda, a era virtual. Carregávamos papeis e mais papeis.

 Eis que de repente, alguém agarra a minha pasta, eu me viro e começo a lutar com o enxerido. Agarrei a pasta com as duas mãos. E ficamos ali um tempinho, medindo forças, ele começou a ter dúvidas se tomava minha pasta ou meu relógio, arranhava meu braço e o relógio nada de sair, até que se cansou e se mandou para meu alívio. Segui meu caminho, trabalhei e voltei para casa no fim do dia, em paz.
Alguns dias depois, Júnior, meu filho, na época com 13 anos, chegou a casa chorando, descalço, de cuecas e camisa do uniforme, apenas. No caminho de volta das aulas, outros enxeridos, desta feita, alguns adolescentes, tomaram-lhe a calça jeans, a mochila, o tênis e jogaram seus livros no matagal ali perto.

Mais alguns dias e eis que algo semelhante acontece com Gláucia, minha filha de 16 anos. Retornando da escola, subia a bendita escadinha atrás do shopping, quando outro enxerido, adulto, tomou-lhe o lindo relógio que trazia ao pulso.

E ficamos em estado de alerta, depois disso tudo. Imagine: em poucos dias, três assaltos. Sem lesão corporal, mas com lesão na alma, porque o medo instalou-se entre nós. E tratamos de encontrar um transporte para o Júnior para ele não ir a pé para a aula sozinho, cuidamos de ficar atentos naquela escadinha e alertamos os demais moradores para o que acontecia naquele trajeto. E ficamos sabendo que não éramos as únicas vítimas.  Então, olho aberto, falávamos entre nós.
Um dia, voltava do trabalho, com uma pasta nos braços e na mão direita uma bolsa quadrada de couro, cuja estrutura era de madeira. Uma malinha, enfim. Era por volta de 18 horas e já estava meio escuro, apesar da iluminação artificial, porque ainda estava naqueles momentos em que não era dia, mas também ainda não era noite.  Subia a escada, quando, olhando para o alto, vi um senhor sentado num dos degraus. Olho vivo. Hoje ele não me pega, pensei. Armei-me de toda a coragem do mundo, minha malinha como arma, em posição de ataque, a voz muda e a testa enrugada, pisava com firmeza os degraus, mirando fixamente o suposto ladrão.  A cada passo, uma ameaça para aquele que se intrometera no meu caminho daquela vez.

Fui chegando firme perto daquele homem e observei, com horror, que o homem estava com medo de mim. Minha expressão era tão feroz que causou espanto naquele que eu pensara ser um bandido. Ele se encolhia e, ao meu visor, estava a ponto de sair correndo.
Recompus-me, passei ao lado dele e, bem alto, cumprimentei-o, com um sonoro Boa noite! Nem esperei resposta e nem me lembro se a deu, e segui, rindo sozinha daquele meu disparate. O pretenso ladrão deve estar pensando até hoje que, naquele caminho, era sempre possível encontrar-se uma doida.

Maria Francisca – março de 2014. Sábado de carnaval.

 
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