segunda-feira, 27 de junho de 2016

SAIU UM NOVO BLOG

Caros amigos,
Estou alterando meu blog. Grata pela gentileza com que me acompanharam. Agora, meu novo blog é www.mariafrancisca.blog.br.
Espero a visita.
Um abraço.
Maria Francisca

sábado, 14 de maio de 2016

RECEITA GOSTOSA?



Vó, você sabe fazer calda de chocolate? Não, Leozinho, por quê?  É porque eu queria... Se você me ensinar, eu faço.
Então, tá. Preste atenção, vó: Um copo de água, duas colheres de leite em pó, duas colheres de mucilon, uma colher de toddy. Mexa bem e está pronto. Fácil, não é?
Isso sem tirar os olhos da TV, porque estaria jogando um jogo muito importante.  E, até aquele momento, segundo ele, eu não poderia sair de perto, porque atuava como sua assistente.
Com a permissão do “chefe”, fui pra cozinha, fiz a tal calda de chocolate, Leozinho experimentou e disse: Está uma delícia. Você caprichou! Sabe por que ficou gostosa, Leozinho?  Porque foi você quem me ensinou. Ele, concentrado no joguinho, sorrindo:  É?
Como disse Leozinho, de vez em quando, capricho. Arvoro-me em boa cozinheira. Gosto, sei fazer alguma coisa, mas não tenho aquela prática de fazer tudo rápido, gostoso e bonito, como uma boa gourmet o faria.
Tenho meus truques, claro. Na primeira vez de uma receita, cumpro todo o ritual.  Depois, vou mudando aqui e ali, até ficar do meu jeito.
Mas não sei se acontece com você o que acontece comigo. Quando copio uma receita de uma pessoa de quem gosto muito, a comida fica uma delícia. Foi por isso que falei com Leozinho que a calda ficou gostosa. Foi ele quem me ensinou, ora.
O certo é que as receitas ensinadas pelos amigos ficam todas gostosas, mas há duas que merecem maior registro. Não erro nunca. Uma é de uma tortinha de frango da Zilá, minha comadre. É muito gostosa. Todos saboreiam com prazer.  Faço de vez em quando. A outra é a broa da Janice, outra comadre querida.  Ela diz que a receita não é dela. Não interessa. Já está registrada assim: Broa da Janice. Os direitos autorais desta feita que se cuidem...
Veja como tenho razão. O filme “Como água para chocolate”, baseado no livro homônimo, conta a história de Tita, uma moça que proporcionava afetos e sensações para quem tinha o privilégio de desfrutar de seus pratos. Ela transmitia para a comida os sentimentos que nutria no momento em que trabalhava aqueles quitutes. Com as adversidades da vida, nem sempre Tita estava feliz. Ocorreu que fazendo um bolo de casamento, Tita estava tão infeliz, que deixou cair lágrimas na massa do bolo,  adoecendo todas as pessoas que dele comeram.
Explicado está como as receitas dessas minhas amigas ficam gostosas. Ali está o amor e o carinho que tenho por elas.  Então, a calda de chocolate do Leozinho não tinha, mesmo, como ficar ruim.
O resultado final é de “dotô cumê e lambê os beiço”, como diria um velho amigo de minha mãe.
Maria Francisca – abril de 2016.



sábado, 2 de abril de 2016

Causos – 5º da série

A peruca dos Lordes

Os tribunais em todo país têm um cerimonial que, muitas vezes, constrange as pessoas que estão pouco acostumadas com o ambiente ou, mesmo, novos advogados.
Pois bem. Um dia, antes da sessão, conversávamos sobre esses rituais, já tão antigos. Uns diziam que poderiam mudar, outros eram contra, por fazerem parte da liturgia, outros que são fora de moda, outros, que a nossa região faz muito calor. Cada um dava sua opinião, quando um colega, brincalhão, disse: pior é na Inglaterra, na Câmara dos Lordes, com aquela peruquinha. Outro lembrou que isso é tão antigo que até a Câmara dos Lordes, no país tão formal, já perdeu a peruca.
Chegou a hora da sessão, a discussão cessou, entramos para o plenário, cada um com sua toga. Devidamente acomodados, foi apregoado o primeiro processo, o advogado levantou-se e apanhou a beca. Ficou muito atrapalhado, não conseguia vestir a indumentária, e foi ficando nervoso.
Eu, presidindo a sessão, tentando acalmá-lo, disse: Excelência, não se preocupe. Essa beca é difícil, mesmo.  Pior era na Inglaterra, como lembrou um colega ainda há pouco, com aquelas perucas. Imagine o calor se fosse aqui.
Pra quê!... O advogado sorriu e disse: Para mim seria até bom. E passou a mão na cabeça. Só aí foi que notei que o advogado era careca.
Ninguém segurou o riso, claro, e os bilhetes de “que fora!” que recebi durante e depois da sessão foram incontáveis.

terça-feira, 15 de março de 2016

SOU HUMILDE, GENTE!



[...] vaidade das vaidades! Tudo é vaidade.
Eclesiastes, 1, 2
Eu sempre digo que sou simples, sou humilde. Daí vem minha vaidade.  Será?

Ontem, uma senhora elogiou meus cabelos. Eu agradeci. Outra que estava perto disse: Ela é toda bonita. Ao que a primeira retrucou, rindo: Só não falei pra ela não ficar muito vaidosa. Rimos e eu completei: É, mesmo. Vou ficar inchada. Rimos todas.

Lembrei-me disso, por uma bobagem que me aconteceu, hoje. Caminhava no calçadão, como de costume, “me achando” como dizem, porque todos elogiam minha boa forma física. Já estava como a rã da fábula. Estufava o peito e andava, andava.

Ai, passou um senhor com um passo normal, comum, e foi à frente. Não consegui acompanhá-lo. Pensei: Que nada, é homem. As pernas são maiores, mais fortes do que as minhas. E continuei me achando.
Daí a poucos minutos, vem uma senhora, no dizer de muitos, senhorinha, porque não se pode mais dizer uma idosa (não sei por que se a lei nos chama de idosos. Só se a palavra caiu de moda), rápida e fagueira, passou-me à frente e seguiu firme e forte.Aí, minha vaidade foi pro brejo... Murchei.

Cada dia descubro uma desqualidade minha (pra não falar defeito, rs). Que sou preguiçosa, isso já sabia desde sempre.  Às vezes, dá vontade de fazer como sugeriu Pedro a Jesus (Lucas, 9,33): “Mestre, é bom estarmos aqui. Podemos levantar três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Principalmente quando tenho muita coisa para fazer e não sei por onde começar.

 Já´ falei no poema Confissão (In Sal, pimenta e ternura) que sou invejosa: “Tenho inveja! Descobri esse sentimento pobre, podre e disforme”. Mas só de vez em quando. Claro. Tento me fazer gente. Mas é difícil, às vezes, não ter uma invejazinha. Leio sempre sobre a inveja, porque esse “pecado capital” o mais horrível de todos. Zuenir Ventura, por exemplo, escreveu “Inveja, mal secreto”, parte daquela coleção Plenos Pecados, da Editora Objetiva. Nele, Zuenir tenta revelar algumas facetas desse pecado inconfessável. Já Nilton Bonder, em “Cabala da Inveja”, faz distinção entre ciúme e inveja. No ciúme, queremos obter algo para nós, independente da pessoa que tenha aquele algo que queremos.  “Sonhamos nos tornar o objeto do amor ou do prazer que imaginamos que o outro desfruta; uma vez que isso aconteça, o indivíduo de quem tínhamos ciúme já não nos interessa. O ciúme tem seu centro em nós mesmos.” Na inveja o foco é o outro. O invejoso passa a ser refém do outro. Não quero algo para mim, quero que o outro não tenha esse algo.   O Rabino, então, traz o exemplo de Caim (interpretando Gên 4:6). Caim ficou com muita raiva, não porque Deus não aceitou sua oferta, mas porque aceitou a oferta de Abel.
Querem saber de uma coisa? Chega de falar de minhas desqualidades. Daqui a pouco, sento num canto e choro, pensando que sou péssima.
Tenho meus defeitos, mas tenho também minhas virtudes.
Quem é perfeito? Só Deus.


Maria Francisca – março de 2015, num dia de reflexão.

sábado, 12 de março de 2016

CANTIGAS DA PRISÃO

Para Sidemberg

Sabia voar.
Poderia ser uma águia
Perdi minha essência e naufraguei.
Meu lado avesso venceu.

Queria luz, procurei trevas.
E trevas encontrei no meu deserto,          
Onde vento e silêncio espalham areias,
As saudades do meu eu que perdi
E ferem meus olhos

Pensei no ritmo, esqueci o rumo.
Sem prumo, nas trevas, cambaleio.
Falta ritmo, falta rumo
E a madrugada não vem.

Dizem que sou bandida. Não creio.
Condenada estou, eu sei.
Mas preciso de outro olhar
Compassivo, curativo, renovador.

Sofrida, sou, não nego, mas canto,
Pra afastar o desalento e o pranto
Que teima em escorrer n’alma
Enquanto olhos secos vigiam
A noite escura.

Maria Francisca – 18/11/2014, após assistir à apresentação do coral “Maria, Marias”,  das presidiárias de Cariacica.




terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

CAFÉ COM PÃO, MANTEIGA NÃO!



O clássico “Café com pão, manteiga não” misturava-se nos meus sentidos à também clássica “Trenzinho do Caipira” do nosso Villa Lobos: Lá vai o trem com o menino, lá vai a vida a rolar... Ora ouvia o som de Maria Bethânia, ora instrumental, ora a voz (barítono profundo?) de Zé Ramalho. O insight foi a chegada à estação Pedro Nolasco, de Cariacica, ES, onde embarcaria, daí a pouco, no trem da Vale,  com destino a Intendente Câmara, em Ipatinga, Minas Gerais.

Desde os anos 80 não viajava de trem.

Naquela época, as janelas abertas durante todo o percurso, devido ao escaldante calor, uma nuvem fina de poeira escura entrava, sorrateira, e cobria-nos a todos com seu manto. Chegávamos ao destino negros, totalmente negros, de tanto pó. As malas e apetrechos pelos corredores, farofa, frango, somando-se àqueles rapazes que serviam bebidas e salgados, nos vagões, formava uma confusão só.    Isso na chamada primeira classe, que ainda tinha poltronas.  Na tal segunda classe, pior. As cadeiras de madeira, às vezes sem cadeira para todos, tantas as bagagens, fazia com que alguns, extenuados, sentassem ou deitassem sobre bolsas, malas, para um pseudo-descanso. Aí, a coisa piorava, porque nem se podia passar, no meio daquele “rolo”.

Mas agora, tudo é diferente. A classificação das acomodações também mudou, talvez num esforço inútil para alcançar o que se convencionou chamar de politicamente correto: temos a classe executiva e a econômica. Pode-se comprar passagem pelo site, mas, pena, o bilhete para embarque só é entregue no guichê.

Ao embarcar, a primeira coisa que me aconteceu, “pra variar” foi errar o meu vagão. Fui para a classe econômica, que achei muito boa, olhei o número coincidente da cadeira e já estava bem tranquilinha, quando a dona da poltrona chegou e, delicadamente, me explicou que eu deveria ir para a classe executiva, dois vagões à frente.

Segui, com o trem já em movimento, para o lugar a mim reservado, tentei acomodar minha mala, mas, ai, não cabia naquele espaço apertado sobre as poltronas. Um senhor, gentilmente, me ajudou a acomodar a bagagem num compartimento no final do vagão, malas em cima de malas. Coitado de quem levou algo frágil, pois chegaria ao destino em frangalhos. Ruim, ainda, é que cada um que cuide de sua bagagem, mesmo que ela fique distante de seus olhos. Se perder, perdeu.

Sentei-me e fiquei a imaginar como passar mais de oito horas ali, parada. Lembrei-me de que havia levado vários livros e, depressa, peguei “O inverno de nossa desesperança” de Steinbeck. Uma maravilha de livro que, aliás, lhe rendeu o prêmio Nobel da literatura. É a história de Ethan, herdeiro de uma importante família de uma cidadezinha de Nova Inglaterra. Sua família foi à falência e ele trabalha como empregado numa mercearia, mas, de tanto a mulher e os filhos reclamarem da pobreza em que vivem, resolve abandonar seus escrúpulos e princípios.  Bela e triste história. Lendo, consegui passar, maravilhosamente bem, as 8 horas e trinta minutos da viagem.

No retorno, uma semana depois, duas famílias em férias, ruidosas, estavam no vagão. Exatamente nas cadeiras à frente da minha, 10 pessoas. E exatamente atrás, mais doze. Uma senhora do grupo resolveu cantar, em pé, atrás do meu assento. Haja paciência... E andavam pra lá e pra cá, trocavam alimentos, riam alto, gritavam para os que estavam mais longe. No inicio, tudo bem, é até bom ver tanta alegria e animação, mas depois de um tempo, cansa. Pra piorar, o clima ora esfriava de dar arrepios, ora esquentava. Foi um tal de vestir e desvestir agasalho que não acabava mais.

Como não conseguia me concentrar na leitura, voltei minha atenção para a paisagem. Bonita em determinados lugares com belas árvores, vegetação verde, animais com pastagem farta. Mas, como sempre, pobreza e secura em outros. Casebres à beira da linha. Não sei como vivem, se dormem, com aquele barulho de trens de cargas de dia e de noite, sem contar o de passageiros, duas vezes ao dia. 

O Rio Doce, coitado, assoreado, sujo, maltratado, a mais não poder, com duas barragens no trajeto. Em determinados lugares, nem se via água; era só pedra.  Num ponto, estava tão seco, areia pura, que fez a criançada gritar: Praia!

Fui observando tudo pelo caminho afora e pensando: o que estamos fazendo com nosso mundo... O que acontecerá às próximas gerações...  E aí, enveredei pela corrupção endêmica, a falta de escrúpulos neste nosso mundo de Deus.  Tristemente, pensei se não seria esse “o inverno de nossa desesperança”...

Para afastar a tristeza, retomei minhas audições imaginárias do início da viagem e segui assim, até o fim do caminho: ...Cantando pela serra do luar, correndo entre as estrelas a voar, no ar no ar, no ar, no ar, no ar...


Maria Francisca – julho de 2015. Publicado, inicialmente no facebook da Vale.

VÓ, VOCÊ ESTÁ AÍ?



Voz de neto é música para meus ouvidos

Sentada prazerosamente na varanda, lia um belo livro, aliás, nome sugestivo, “O livro dos abraços”, de Galeano, enquanto aproveitava o ventinho gostoso que vinha do mar. De repente, um som intrometido e característico interrompe minha leitura. Abro o celular e leio: Vó!

É assim que os netos Gustavo e Gabriel costumam fazer. Lançam um “vó” no whatsapp, para que eu entre on line e eles falem o que desejam, principalmente quando estão fora de casa.

Hoje o Gabriel resolveu telefonar. E quase chorando, porque esquecera na mochila do Inglês o material que teria que levar para a aula. Ligou para meu celular, mas não ouvi. Quando ligou de novo, talvez pensando que eu não iria atender ao telefone de casa, já estava com voz de choro. Vó, cê tá aí?
De uma outra vez, era o Gustavo. Telefonei, para ganhar tempo. Queria recomendar o tipo de ovo de páscoa que desejava e teria que ser depressa, porque só era encontrado nas Lojas Americanas.

O dia inteiro ouço esta cantilena: Vó, faz isso para mim, vó, me leva em tal lugar, vó, você pode me levar à escola hoje? Vó, você traz pra mim o caderno que esqueci em sua casa? Vó, faz macarrãozinho pra mim. Ou, então, no meu ouvido, quando viajamos: vó, quantos chinelos você trouxe? Nesse caso, já sei que esqueceu os próprios chinelos em casa. Daniel  não telefona, mas é mestre em falar de presentes de nome esquisito. Teté (é assim que ele me chama), o presente que quero no meu aniversário é... ( e fala um nome que não entendo), mas você pode olhar isso na internet, tá? E quando está aqui em casa, pergunta depressa: Você pode me levar à escola?  Leozinho, por enquanto, só me pede pra brincar com ele. E temos longas conversas nas brincadeiras.  Pedro, ainda muito pequeno e morando no exterior, fica só na saudade.

É uma relação interessante essa de avós e netos. Quem não se lembra do tempo de criança em casa de avós? Eu, de vez em quando, me vejo pequena, sentada em volta de uma enorme fogueira, escutando meu avô contar histórias. Ou com minhas tias, pescando lambaris num riozinho de águas transparentes.

É uma relação tão prazerosa, que fico a imaginar como fazem, ou como sentem as avós, quando são impedidas de ver os netos. Digo isso, porque há separações de casais em que um dos cônjuges está tão magoado que impede ou dificulta a relação das crianças com a família do outro. Deve ser muito triste.

Por isso, quando um neto me chama, não tem livro bom, não tem ventinho gostoso, não tem nada.
Só tem o neto me chamando...

Maria Francisca – maio de 2015. Publicado, inicialmente, no site: www.questoesdefamilia.com.br







domingo, 7 de fevereiro de 2016

TUAS MÃOS


Para minha mãe

Minhas mãos rugosas lembram as tuas.
Minhas lembranças misturam-se aos sonhos
E vejo tuas mãos, olhando as minhas.

Mãos que meus filhos embalaram
Mãos que meus filhos acalmaram
Mãos que sempre acarinharam
Mãos que na luta não se abalaram.

Quanta vida por ali passou
Quantos bebês essas mãos ninaram
Quanta beleza essas mãos criaram.

Elas que andaram por ruas amparando
Elas que vestiram sonhos de desamparadas
Elas que saciaram a fome de afilhados
Elas que aliviaram de muitos o cansaço
Elas que iniciaram da vida o abraço.

Mãos carinhosas, mãos caridosas, mãos sofridas.
Mãos cansadas, mãos amadas, mãos amigas,
Mãos que fazem parte de minha vida.


Maria Francisca – novembro de 2015

domingo, 13 de dezembro de 2015

Eu tenho estilo?



Eu tenho estilo?

Dia desses, li uma notícia em que uma atriz dizia que estava adorando fazer uma personagem de cara lavada, já que detesta maquiagem. Eu também não gosto, aliás, gosto, mas não todo dia. De vez em sempre me rebelo e saio sem nada, de cara lavada, mais para protestar contra essa ditadura que escraviza as mulheres: cabelo sempre arrumado (fios brancos nem pensar, a menos que seja por conta de alguma tintura da moda), tem que ser magra, sarada, barriguinha, afe! E bem arrumada e cheirosa, mesmo no fim de uma jornada estafante.

Então, tá. Tenho uma bermuda de um tecido que parece náilon, tipo pula-brejo, que se pode embolar e colocar na gaveta, depois tirar e vestir. É dessa que gosto. E visto muito. Vou ao supermercado, ando pela rua, vou a lojas. Se não quiserem me vender por achar que não tenho dinheiro (sempre nos avaliam pela aparência), paciência, bato-me em retirada e vou pra outra loja. Não me submeto. Só me arrumo, se tenho vontade. Claro, não vou a uma festa mal arrumada, porque seria menosprezo à festa e ao dono da festa.

Outro dia, fui a um banco em que tenho conta. Quando a agência era comum, eu ficava constrangida de ser atendida numa sala reservada, por ver os demais naquele filão. Agora, a questão é outra. Cada sala é reservada: Agência Estilo. Cheguei lá, com minha bela bermuda pula-brejo, pois a tal agência fica perto de minha casa, e dirigi-me à atendente. A primeira coisa que ela fez antes que eu abrisse a boca foi perguntar: “A senhora tem conta aqui?” Eu quase respondi: “Não, estou aqui porque não tenho o que fazer e gosto de passear em banco.” Informei o número e, quando ela acessou o arquivo, disse que queria talão de cheques e fui para um caixa eletrônico. Ficar ali esperando uma vida, só por talão de cheques?
Mas, surpresa, a palavra estilo, que passei a abominar, foi usada em relação a mim, numa loja. Vestia a mesma bermuda e vi uma roupa bonita numa vitrine. A vendedora me viu, abriu a porta e eu entrei. Perguntei sobre a roupa, mas não tinha meu número. Ela, então, disse: Temos outras peças que a senhora pode gostar. Eu disse: Será? E ela: São roupas muito bonitas e a senhora tem estilo.

E o que é “estilo”? Entre outros significados, o Houaiss registra, com sentido figurado: “conjunto de tendências, gostos, modos de comportamento característicos de um indivíduo ou grupo” [... ] “elegância no vestir”.

Pois é. Eu não estava elegante, coisa nenhuma. Ou estava muito esquisita? O que ela quis dizer com isso?
Sem esperar minha conclusão pessoal, reflexiva ou intelectiva, ri, agradeci e saí.
Estilo, eu? Como aquele banco? Eu, não...


Maria Francisca, novembro/2015.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Prendas domésticas?


Chego ao consultório do geriatra, tiro a senha e fico ali como boba, de olho naquele monitor, onde se visualizam os números. Parece congelado. A minha senha é 101, mas a 96 não arreda pé do vídeo.  Olho, olho, e nada. É o bastante para embaralhar tudo na minha cabeça e começar a viagem para o mundo da divagação.
Escuto uma voz que parece vir de muito longe: 101! 101! Uma senhora, próxima diz: Não é a sua?
Hã? Levanto-me apressada e chego perto da mesa da atendente. Vou respondendo automaticamente às perguntas costumeiras: endereço, telefone etc etc.

Profissão! Profissão! Hã? Mulher Maravilha! Ops, desculpe: prendas domésticas. A moça ri, disfarçadamente, e repete baixinho balançando a cabeça, naquele característico gesto de incredulidade ou de desprezo, sabe-se lá: Prendas domésticas... Sem me olhar, diz: Agora é só esperar.
Acho sempre engraçada esta frase: “Só esperar”. Esse “só” quer dizer o quê, mesmo? Que é pouco? Que nada! Lá fiquei mofando naquela cadeira por um bom tempo, que não medi, porque me pus a rir, sozinha, raciocinando (meditando, ou nas alturas...) sobre a minha profissão: Prendas domésticas...
Mulher que não trabalha fora, hoje, está fora... literalmente, para usar expressão da moda (todos dizem “literalmente”, mesmo quando  a questão não é literal). Fora do mundo, fora dos círculos de conversa, fora da vida, enfim. É isso que pensam as outras mulheres. Ela própria, a dona de casa, acaba se sentindo assim. É como se a pessoa fosse inútil.
Pois é, dona de casa bissexta, resolvi dizer, naquele momento, que era de prendas domésticas, eufemismo que encontrei na hora, usado há muitos anos e que sempre detestei. Aliás, gosto das palavras exatas. Por exemplo: Velho. Por que velho tem que ser terceira idade, melhor idade? É feio ser velho? Deixa-se de ser velho quando se diz diferente?
E vi, mais uma vez, que ser dona de casa não é fácil e eu não tenho as tais prendas domésticas, de jeito algum.. Resolvo tocar piano, lembro: Ai, a máquina parou de funcionar. Será que a lavagem acabou? Levanto-me e vou ver. E já está na hora de fazer almoço, porque o neto chega do Inglês e tem que almoçar rápido para ir pra escola. Coloco a carne para assar e vou cortar verdura pra salada. Distraio-me, com as verduras, até que sinto o cheiro de fumaça: Ai, meu Deus, a carne está queimando. O forno estava muito quente...Vou tirar do forno e, aí, queimo os dedos na pressa. Tarde demais... E as plantas que ainda não foram molhadas? E minha palestra que não terminei de preparar? E a barra da calça do neto que ainda não fiz? E a crônica que não terminei? E a reunião do TJC? Afe!
Tenho quer fazer outra carne depressa. Não, vou fazer ovos mexidos. Mas o arroz está precisando de um pouco mais de água. O telefone toca e o interfone também. Corro a atender. Vizinha querendo subir para falar de algo. Peço pra deixar pra depois. O arroz já está queimando também. Chi! Estou atrasada.
E assim, passo o dia, correndo pra lá e pra cá.
Então, tenho prendas domésticas? Ou sou “Mulher Maravilha”?
Tentando fazer tudo e nada fazendo direito?
Que nada, sou, mesmo, é uma abusada!
Maria Francisca – 01.07.2015, após receber a notícia de que não haveria aula de música, resolve tocar piano e não consegue porque há muitas tarefas domésticas pra realizar.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Para o avião que quero descer


Um acontecimento inusitado naquela quarta de manhã.

Viagem para Salvador resolvida, passagem nos eixos, check in realizado via internet, em casa, como manda a boa regra da vida moderna, e lá vamos nós para o aeroporto.
Despachadas as bagagens, chamada para embarque, apresentamo-nos devidamente na fila de prioridade e seguimos para o avião que vimos no pátio. Conosco, por puro acaso, uma senhora que conhecíamos e que ia também para Salvador. 

Sentados, acomodados, eis que chega um senhor para o assento onde já estava meu marido. Checamos os números, ambos corretos, acionados os comissários, vimos que o nosso avião era outro. Tomamos o bonde errado...ô, amolação!

Saímos depressa, sob gozações de alguns passageiros conhecidos, mas sem achar graça alguma naquele episódio. Ao contrário, danados da vida com a falta de informação que beira a falta de respeito dessas empresas aéreas com os passageiros. No momento do embarque, e fomos os primeiros daquela fila, o único avião à vista era aquele que tomamos. Depois me lembrei de que aeronave certa estava no pátio, mas com um enorme caminhão na frente. Claro, nunca iria me imaginar embarcando ali. No momento, não tive dúvidas, encaminhei-me ao outro, levando a erro meu marido e a outra senhora.

Pois bem. Detectado o equívoco, seguimos para a outra aeronave, desta feita bem visível, e, ao entrar, já refeita da raiva que, graças a Deus, é de má qualidade, porque dura muito pouco, perguntei bem alto aos comissários que se encontravam aa porta: Como já pegamos um bonde errado, logo ali, esse avião vai para Salvador?

Os passageiros que estavam nas poltronas dianteiras caíram na risada. E nós também.
Acomodei-me, como pude, naquele espaço mais do que apertado e sosseguei meu espírito.

Entretanto, como a imaginação só cessa quando quer, de repente, ri sozinha, ao ver nitidamente a confusa cena: em pleno voo, ouço aquele tradicional bem-vindos a bordo do voo 1230, com destino a Guarulhos e, em seguida, meu brado aflito: Para, para, quero descer. Não quero ir pra Guarulhos. Vou pra Salvador. Peguei o avião errado, gente, depressa...


Maria Francisca – maio de 2015.

terça-feira, 28 de abril de 2015

PACTO COM A VIDA

"Fiz um acordo com o tempo: nem ele  persegue, nem eu fujo dele".  Mário Lago.

Seu telefone?  Seu CPF?  Seu CEP?

E assim foi seguindo o interrogatório de uma vendedora numa loja, onde comprei uma simples bijuteria.

Antes eu me negava a fornecer meus dados, uma chateação, mas vi que era mais trabalhoso negar. Em alguns estabelecimentos é uma exigência para emissão de nota fiscal. Mas ali... Querem atormentar os clientes com os torpedos, anunciando as “maravilhosas” promoções.  Antes de terminar o “interrogatório”, só para implicar, pergunto: Para que servem esses dados? Para seu cadastro. E o que você faz com meu cadastro? Uso quando você voltar aqui, responde. E quem falou com você que eu vou voltar? A pergunta fica no ar. Ela continuou a perguntar e eu a responder obedientemente. Nem ela sabia a finalidade daquele ritual. Acostumou-se a fazer aquilo, como lhe mandaram, e pronto.

Por fim, a moça perguntou a data do meu nascimento. Antes que eu respondesse: Não, não, é só dia e mês. Porque muita gente não gosta de falar a idade. Eu não tenho esse preconceito, moça. Nasci dia 11 de outubro de 1948, tenho 66 anos de idade. Ela riu. E eu saí da loja.

Caminhando pela rua, fiquei pensando nisto: Por que será que as pessoas, principalmente as mulheres, não gostam de revelar a própria idade? Medo? Mas se a idade está à vista... A menos que se faça uma cirurgia plástica geral, a idade sempre aparece. Aliás, acho até que nem assim. Aqui e ali, vai ficar algum rabo. E não adianta tratar de terceira idade, melhor idade, porque a velhice está aí a merecer cuidado e respeito, não preconceito.

Sou velha, sim, e não me preocupo. Assumo minha velhice sem medo. E ainda proclamo minha idade para quem quiser ouvir. Claro, cuido da aminha saúde, da minha aparência, gosto de roupas bonitas, mas sem os exageros da juventude, que já se foi faz tempo. Não fujo do tempo, como disse Mário lago, mesmo porque de nada adiantaria. A velhice vem, quer queira, quer não.
Fato é que amo a vida e já fiz um pacto com ela. Conheço quase todas as cláusulas, menos uma: a do término do contrato. Por que fiz um pacto assim? Conheço o Dono da Vida e confio nEle.  E, no final, ganho a Vida Eterna.

Vou vivendo alegre, como sempre fui, e ela aqui, comigo, também feliz, minha companheira, que me sustenta e me conduz. No dia em que ela não me quiser mais, viajo tranquila. Estou aprendendo o caminho, pouco a pouco.

Não mais vou ter esse problema de pacto, de velhice, de beleza, de cuidar da saúde, nada disso. Vou morar num lugar distante, numa casa diferente.  Lá nessa Casa, onde passarei a viver, tem muitas moradas e todos são saudáveis e felizes (Jo 14, 1-2). Claro, se eu cumprir todas as cláusulas do contrato. A mais difícil, mas a mais importante, pois dela dependem as demais é esta: Amai-vos uns aos outros como eu vos amo (Jo 15,12). Dia a dia, esforço-me, mas, humana demais, caio, levanto, tento de novo e vou levando. Espero poder cumprir a minha parte no contrato.

E vou caminhando nesta estrada que, como diz Fábio de Melo, não fica no chão sob os meus pés, mas dentro de mim mesma.

Maria Francisca – março de 2015, tempo quaresmal.


sexta-feira, 24 de abril de 2015

CAUSOS - TERCEIRO DA SÉRIE

Água com adoçante acalma?

 
Para Elzimar
Eu era titular da 6ª Vara de Vitória, mas atuava no tribunal, porque o TRT-ES, na época, era composto de apenas seis juízes de carreira e dois classistas e não podia ser dividido em turmas. A lei proibia.  Havia sempre necessidade de um juiz convocado para dar conta da imensidão de processos, principalmente quando um dos membros titulares se afastava em gozo de férias ou em licença médica.
O gabinete dos juízes convocados, que nem merecia o nome de gabinete, funcionava num quase porão, sem um mínimo de conforto. Tinha até mofo. Nem tudo era ruim, porém. As servidoras eram ótimas, todas comprometidas com o trabalho que realizavam, embora em condições mais do que adversas. E o trabalho rendia.
Um dia, analisava, como relatora, uma ação rescisória, com número expressivo de autores, todos servidores de determinado órgão público. O objetivo buscado era rescindir uma sentença que lhes havia negado o pedido de adicional de insalubridade.
A decisão impugnada julgara improcedente o referido adicional, porque a perícia realizada concluíra pela inexistência de qualquer agente agressivo no ambiente de trabalho. Os fundamentos da ação rescisória eram simples, aliás, simplórios, e, portanto, desprovidos de força processual. Já à primeira leitura, previ o insucesso daquela ação.
Pois bem. O órgão público, no limiar de nova gestão, resolveu fazer um acordo para pôr fim à ação rescisória e antecipou todo o pagamento ao advogado.
Ele chegou ao gabinete dos juízes convocados muito feliz e, depressa, dirigiu-se a mim, mostrando o termo do acordo. Li o documento com atenção e disse: Doutor, desculpe, mas não posso homologar um acordo desses e tenho certeza de que os demais colegas vão acompanhar meu voto. E expliquei os motivos, inclusive a ilegalidade do ato.  O advogado nada disse. Sentou-se e ficou ali quieto, olhando o nada, pálido como cera.  
Preocupada com a mudez e com a aparência  do advogado, pedi a uma servidora  para buscar água com açúcar para ele, no andar de cima, já que o gabinete, como disse, era desprovido de tudo. Enquanto isso, eu, patética, abanava-o com uma capa de processo, pois parecia em vias de desmaiar.
A servidora retornou bem depressa e o advogado tomou a água. Foi se acalmando, pouco a pouco, melhorou, agradeceu e saiu apressado.
Mal ele acabou de sair, a servidora, rindo, me disse: Dra. Francisca, eu não encontrava açúcar de jeito algum, então coloquei adoçante na água. Será que água com adoçante acalma?
Rimos as duas...
Maria Francisca -  abril de 2015.


domingo, 22 de março de 2015

Se sorrir, arrisca-se a ganhar um abraço.



Sou do tipo que cumprimenta todo o mundo. Basta que alguém olhe para mim. E um papo também não dispenso.  Uma colega me diz que eu tenho assunto até pra gente chata. Ora, por que não? Os mineiros não têm fama de bons de prosa?

De vez em quando faço experiências. Saio por aí cumprimentando todo mundo só para ver o resultado. Uns olham e respondem desconfiados. Outros respondem firmes.  Outros fazem cara de paisagem.  É que o mundo anda tão difícil e triste que pessoas fogem de pessoas. Talvez fosse melhor viverem sozinhas, só com seus aparelhinhos, tipo celular, para conexão com quem desejarem, sem necessidade de ficar perto de gente. Ou com seus cachorrinhos. Olhar nos olhos compromete.

Outro dia, andava no calçadão com meu marido, quando uma moça olhou-me, sorridente. Cumprimentei-a e meu companheiro perguntou-me quem era. Eu disse que não sabia. E, ele: Você é engraçada. Cumprimenta todo mundo e nem sabe quem é. Basta olhar pra você. Se sorrir, então, arrisca-se a ganhar um abraço... Respondi: Depois que li aquele texto sobre o abraço, até que seria bom.  Eu ficaria com dois corações, como fala o matuto da crônica.

A propósito, li no jornal “A Gazeta” o seguinte comentário de Jorge Vidor: “Nada menos que 700 advogados trabalham hoje na Petrobras. Diante das confusões que envolveram a companhia, tem executivo lá pedindo parecer jurídico até para dar bom dia”. Claro que é uma brincadeira, numa situação esdrúxula, mas serve para ilustrar nosso dia a dia, com as pessoas com medo de tudo. Que mulher é essa me cumprimentando? Que será que ela quer? Assim, a diferente ou a esquisita sou eu.

Se é preciso paz pra poder sorrir e amor pra poder pulsar, como diz a bela música de Almir Sather, é muito difícil cumprimentar e, mais ainda, dar um abraço, porque, hoje,  a paz está só no dicionário e o amor é líquido.

Melhor e sem perigo algum é o contato apenas virtual, onde posso falar do que quiser, mostrar-me feliz quando ninguém vê minha cara de sofrimento,  colocar um tal de kkkk, de algo que nem graça achei, exibir meu último penteado, minha viagem maravilhosa, inventar coisas etc, etc.

Perigo, perigo mesmo, é o real, é o pé no chão, é olhar nos olhos, é comprometer-se com as pessoas.

Sou, então, a esquisita. De outro tempo. Do tempo real. Quem sorri para mim, arrisca-se, mesmo, a ganhar um abraço.

Maria Francisca – outubro/2014.

 

segunda-feira, 9 de março de 2015

Castelo e Sonhos



Hoje vi um castelo. Daqueles grandes, com direito a torres, prisioneiros, ou melhor, prisioneiras (porque as torres sempre tiveram prisioneiras, por obra e graça de alguma bruxa). Tinha também Rapunzel, ou seja, era um castelo de verdade. E estava escrito: “Castelo”, pra tirar qualquer dúvida.

O detalhe é que Rapunzel naquele momento não estava à vista. Talvez estivesse com medo daquele mundão de gente que passava em frente ao castelo. Ou talvez dormindo, porque ainda era bem cedo.

Ia eu para o aquecimento dos Passos de Anchieta, saindo de Barra do Jucu para chegar a Ponta da Fruta, num solão de rachar, ou melhor, de esfolar qualquer pele desprotegida. E ali, bem ali naquela rua, surge aquele castelo.  Sempre tive uma queda por Rapunzel, apesar de nunca ter cultivado tranças como uma das minhas irmãs que, infelizmente pra nós e felicidade pra ela, espero, já está no Infinito.  As tranças dela por certo dariam para levantar um príncipe, tão grandes e fortes. Era um belo cabelo preto, que ela usava enrolando as tranças em volta da cabeça, como uma coroa. Só que um dia, pena, voltou de uma viagem a Bom Jesus da Lapa sem os cabelos. Com eles curtinhos. Resultado daquelas famosas promessas que as mães faziam e as coitadas das filhas precisavam cumprir, mesmo contra a vontade. Acabou a força, como Sansão, e foi também o fim da beleza daqueles cabelos pretos e brilhosos. E, pra completar, adeus minha motivação pra sonhar com Rapunzel. 

Fiquei olhando o castelo e me lembrando dessas coisas, das bruxas e princesas que povoaram minha infância e eis que surge Fiona, ainda princesa, no colo do seu Shrek. Uma princesa muito feia, nem chegava aos pés da Rapunzel. Mas, aí, acordei para minha realidade: as princesas eram bonitas porque eu as via com os olhos da infância, da inocência, quando tudo é bonito e colorido. Pior é que Fiona ficou ainda mais feia depois pra se casar com seu príncipe mais do que feio que, ela, certamente, achava bonito. O amor, sempre o amor, vendo as coisas com outro olhar.
E aí veio o burro, com aquela implicância toda, aquela amolação, e eu não quis mais ver princesa, nem príncipe, nem Castelo, porque perto de mim passavam bravos lutadores (contra moinhos de vento), caminhando, caminhando, para desafiar não sei o quê e eu os segui, novamente, porque Dom Quixote eu sempre fui e acho que vou continuar sendo, mesmo sem querer. Então, ando, ando, pareço um judeu errante, como diria Adélia Prado. Não porque penso estar minha saúde no calcanhar, mas porque gosto desse exercício diário, enquanto vou reparando aqui e acolá, seja gente, sejam castelos ou simples casinhas com seus cachorros, pequenos ou grandes, mas sempre nos dando sustos. Caminhei a manhã inteira e parte da tarde. Cansada e feliz da vida.
Retorno a casa e chego à varanda, para ver o mar com suas enormes ondas a cair na areia com estrondo. Olho para cima e fico encantada com o colorido do céu, cheio de parapentes flutuando no ar.

Ai, meu Deus! Que vontade de voar!
E ali fiquei a  sonhar...
Maria Francisca – 21 de fevereiro de 2015.

sábado, 15 de novembro de 2014

ACENDA UMA VELA


De vez em quando, revejo textos, crônicas ou poemas preferidos. Desta vez, coube a Jorge de Lima fazer a minha alegria. Tirei da estante Poesia Completa e, sem surpresa, vi que estava marcada a página do soneto O acendedor de lampiões, meu preferido. Reli e fiquei pensando na primeira estrofe (Lá vem o acendedor de lampiões da rua! Este mesmo que vem infatigavelmente, Parodiar o sol e associar-se à lua Quando a sombra da noite enegrece o poente). Energia elétrica nem pensar. As ruas, escuras, dependiam desse homem, que caminhava, caminhava e, infatigavelmente, iluminava as cidades.
O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry, também fala do acendedor de lampiões. Só que seu planeta era tão pequeno que ele, mal acendia, tinha que apagar depressa a luz, porque já era dia. E nem podia dormir. Limitava-se a acender, apagar, e repetir, incansavelmente Bom dia, Boa noite, cumprindo o regulamento que não mudava nunca, apesar de o planeta ter mudado e começado a girar mais depressa. Era fiel ao regulamento. O Pequeno Príncipe, depois de fazer perguntas e mais perguntas, sugerir atitudes ao acendedor, concluiu: Esse aí seria desprezado por aqueles outros, pelo rei, pelo vaidoso, pelo beberrão, pelo empresário. No entanto, é o único que não me parece ridículo. Talvez seja porque não se preocupe apenas consigo mesmo.
A minha cidade natal tinha uma usina hidrelétrica, moderna para aquela época, naquele fim de mundo, mas com sistema manual. Aí, precisava do acendedor de lâmpadas. Chamava-se Manoel e tinha o apelido de Manoel da Luz, porque ia de rua em rua, com um grande bastão, na ponta um interruptor, acendendo as lâmpadas da Cidade. Mal insinuadas as sombras, lá vinha o Manoel da Luz, equilibrando-se em sua bicicleta Um dos nossos deleites era vê-lo, com toda perícia, sem descer da bicicleta, cutucar o poste e, como seu bastão mágico, fazer brotar bela e longa claridade, como a luz da lua.
Jorge de Lima diz, na penúltima estrofe do soneto: Triste ironia atroz que o senso humano irrita: Ele que doira a noite e ilumina a cidade, Talvez não tenha luz na choupana em que habita. Talvez, mas concluo, com o Pequeno Príncipe, que esse acendedor de lâmpadas também não pensava em si mesmo, cumpria seu dever de iluminar a cidade, com chuva ou sol. Por isso era tão querido pela população.
Em Mateus 5, 14-16 está escrito: “Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha nem se acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire, mas sim para colocá-la sobre o candeeiro, a fim de que brilhe a todos que estão em casa. Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus”.
Não seriam esses acendedores um símbolo do cristão de que fala Mateus? Com seu trabalho incansável traziam alegria, porque traziam luz. E não pensavam em si, mas na tarefa que deveriam realizar, com cansaço ou com chuva, lá estavam eles, produzindo a magia de afastar as trevas.  Aqui, vale a simbologia da frase que li faz tempo: Não grite contra a escuridão, acenda uma velha.  E nós nem precisávamos gritar, tampouco precisávamos de velas. Tínhamos nossos vagalumes humanos, nossos mágicos da luz que nos impulsionavam à alegria.
Fico pensando nisso tudo e questiono a mim mesma, onde colocar uma vela, após essa avalanche de denúncias mal ou bem formuladas, esclarecidas ou não, verdadeiras ou não, e após uma eleição, em que se viu tanto ódio? Alguém verá? Terá força? Temos, hoje, acendedores de lampiões?

Maria Francisca – outubro de 2014.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O MENINO, A CHUVA E O PÃO



Acordei às seis da manhã, abri a janela e vi que o dia nascera muito claro. Chegando à portaria, surpresa, uma grossa chuva dava os últimos suspiros, com pingos salteados, obrigando transeuntes madrugadores a usarem capuzes ou guarda-chuvas. Lembrei-me do poema Caso pluvioso de Drummond (“Era chuva fininha e chuva grossa, matinal e noturna, ativa… Nossa!”) e ri sozinha, quando me lembrei de que no poema ele diz que descobriu que Maria é que chovia. Será que era eu que chovia? Está sempre chovendo nos meus dias...
No calçadão, vi que o sol se esgueirava aqui e acolá, como a fugir de algumas nuvens grossas. Parei uns instantes, a tempo de contemplar os ralos faróis dourados caindo sobre o mar.
Continuei meu trajeto, pensando nessa natureza tão versátil e tão volúvel. Ora chove, ora faz sol. Como os humanos. Ora somos tristes, chuvosos, ora somos o próprio sol, ofuscando de brilho ou tisnando na quentura.
Pensando nisso e já retornando, vi um novo cenário. O céu ficou escuro, a chuva chegou em cântaros e a enxurrada engrossava os ralos de águas pluviais, os carros, em desabalada correria, jogavam água nos pedestres e todos fugindo como podiam.
Vi um menino correndo, gargalhando, e metendo-se por um portão de uma daquelas portarias elegantes da Praia da Costa.
Comecei a pensar num menino que vira na véspera, na chuva. Noite alta, festa acabando, chuva caindo, um menino ensopado e um guarda-chuva cedido em troca de algumas moedas. Era magrinho, muito bonito e sorria. Nem pensava no resfriado que poderia sofrer depois, nem sentia o frio que fazia naquela chuva, nem via que estava todo molhado. Só pensava nas moedas. Precisava daquelas moedas. O pai sumiu no mundo, a mãe acamada, irmãos pequenos, as moedas, sim, as moedas seriam o pão na manhã seguinte, quem sabe o leite, o café, quem sabe ganharia mais, quem sabe, quem sabe...
E todos queriam o guarda-chuva do menino. Ele já estava molhado mesmo! Ah! Quer uma moeda! Uns: Aqui, menino!  Outros: Pena, não tenho nada. O menino contou suas moedinhas, recontou e viu que perdera uma, na corrida de volta dos carros para ceder o guarda-chuva para mais uma pessoa. O último vai saindo. Quem sabe vou ganhar mais uma, pensou. E ganhou: vinte reais. Vinte reais! Que maravilha... O pão e o leite garantidos...
O dia já ia raiando. O menino foi-se. Teria passado na padaria? Teria ido pra casa? Teria ido dormir?
De repente, vi-me parada no calçadão e toda molhada. Voltei pra casa depressa, fincando o pé no chão, bem forte, antes que outros meninos pobres ou ricos, sorridentes ou tristes, viessem tomar conta de meu dia.
Maria Francisca – outubro/2014.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

ONDE ESTARÁ PEDRO?

Como homenagem ao dia da criança, posto este poema, desejando que um dia todos os Pedros do Brasil tenham seus direitos garantidos pela Constituição Federal e possam crescer saudáveis e felizes.
 
Trata-se da história contida na revista "Trabalho Infantil" da ANAMATRA (Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho). É de uma criança chamada Pedro, de uma família muito pobre, que era bom aluno, mas, de repente, começou a faltar às aulas, perder notas,  sempre triste,  até que parou de ir à escola. Aí, as crianças, perguntam:
 
“Onde estará o Pedro?
Por onde andará?
Não veio à escola. Na sua casa não está.
Dizem que está nas ruas,
Vendendo balas nas esquinas
Sabor laranja, morango e limão...
Frutas colhidas nas fazendas
Por mãos pequeninas
De centenas de meninos e meninas.
Perguntamos: Onde Pedro está?
Mas, também, onde estará Maria, Cristina, João...
Trabalhando no campo? Na cidade? Ou no lixão?
São crianças invisíveis aos olhos de muita gente grande.
Não enxergam suas idades,
Maquiam de bem a maldade.
Ainda pequeninas começam a trabalhar
Enriquecendo uns poucos nos campos e nas cidades
Prejudicando quantos Pedros?
Por isso terminamos repetindo a pergunta:
Onde ele está? Por onde Pedro andará?”
 
 
 

domingo, 28 de setembro de 2014

UM MISTÉRIO E UM PERIGO: VIVER


A placa ainda está lá. Só não brilha mais.
As portas fechadas mostram o vazio que se instalou na casa. Banners, tapando a varanda e impedindo a entrada do ar e do sol, não escondem a tristeza que ainda deve reinar no coração de quem avista aquela placa e, principalmente, no coração da família.
Ali, era tudo alegre e bom. O dono, jovem, mostrava vigor e otimismo que, num átimo, apagou-se para sempre. Filhos esperavam-no ao fim do dia.  Ele não chegou. Ninguém sabia o seu paradeiro. Só o vento e o mar poderiam dar a resposta.
O vento, com seu canto noturno e soturno, ajudou a arrastá-lo para longe, bem longe, onde a vida terminava aqui e começava noutro lugar, talvez mais belo, talvez mais humano, talvez mais alegre, talvez mais feliz.
Ninguém pode entender uma pessoa que tira a própria vida, se “a medida do homem é a vida”, como disse João Cabral de Melo Neto, em belo poema. Ninguém sabe o que vai no coração e na alma: o sofrimento deve ter sido muito grande, maior do que poderia suportar... Ou seria a desesperança?  Ou, quem sabe, um momento, um momento só, de loucura? Só Deus para saber.

Ítalo Campos, psicanalista e poeta, num ensaio para o caderno Pensar de “A Gazeta” ( 19.04.2014), busca respostas para o ato final escolhido por muitos que caminham ao lado da arte, porque, segundo ele, o escritor ou  o pintor livram-se de seus males provocados pela crueldade do mundo, lidando com um mundo idealizado, misterioso, longe de nosso alcance, por serem mais sensíveis. Então, como explicar suicídios de grandes autores, como Hemingway, Virgínia Wolf, Florbela Espanca e tantos outros? E acrescenta que é perfeitamente normal nós, insensatos e, em contato com alguma tristeza ou perda irreparável, pensemos na morte como saída, mas não chegamos a praticar o ato.
Mas muitas chegam ao ato. Penso que a arte não dá conta desse mistério insondável, além de perigoso, como disse o Diadorim, de Guimarães Rosa.   E todos podem passar por maus momentos e não conseguir suportá-los. Tanto artistas como pessoas comuns são vulneráveis.
Li, certa vez, não sei bem se em Hermingway, logo ele, que pôs fim à própria vida, que um homem estava indo furtar ovos num quintal. Perto do lugar em que pularia o muro, havia uma enorme árvore e, sobre ela, um homem, prestes a se enforcar. Já tinha a corda enlaçada ao pescoço.  Aí, nosso primeiro personagem disse ao possível suicida: Que é que está fazendo aí? E ele: Vou me enforcar, porque não tenho mais esperança. Ao que o interlocutor respondeu: Deixe de mentira, se você vai se enforcar é porque acha que morrendo vai ser melhor. Então, você tem esperança, sim. Desça daí, já! Venha me ajudar! E o homem, obedientemente, desceu da árvore. Oxalá, as coisas pudessem acontecer como na ficção, mas é um exemplo de que ninguém sabe o que move um suicida.
Albert Camus afirma, em “O mito de Sísifo”, que a questão é saber se a vida vale ou não vale a pena ser vivida. E, por isso, muitas pessoas morrem: acham que a vida não vale mais a pena. E pessoas outras há que morrem por uma ideia, diz o escritor, uma ideia que lhes dê razão para viver. Ou seja, a ideia que é a razão de viver é a mesma que dá razão para morrer. Será que alguém reflete antes de cometer suicídio? Ou: há suicídio premeditado? Pode haver, quem sabe?
Há poucos dias, perdi um colega. Suicídio, contaram. Era jovem, bonito, culto, talentoso, poeta, fotógrafo. Tinha tudo para viver bem. Dizem que estava deprimido e sofria muito. Nada sei, ao certo. Sei que a vida, por si, já é um sofrimento. As brigas, as guerras, o tráfico, a pobreza, a corrupção, as drogas... Para as pessoas mais sensíveis, então... Drummond diz, num poema, que os delicados prefeririam morrer.
Já o jovem do início do texto os jornais noticiaram que se envolveu em situação embaraçosa de corrupção e estava denunciando os corruptos por meio virtual. A pressão foi tanta, que ele não suportou. A corrupção, essa praga que assola o mundo todo, e nosso País, principalmente. Não sei se é verdade. Só sei que algo barrou esse caminho, como o caminho do meu amigo, que poderia ser iluminado, e iluminar a vida de muitos com sua arte, sua vida e seu trabalho. E a pergunta se renova: Por quê? Só Deus poderia dar a resposta. Ninguém mais.
Com meu turvo olhar sobre o mundo falo com Drummond, mesmo sabendo que nada, nada mesmo, nesta vida, é definitivo:
“Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.”

 

Maria Francisca – início de maio de 2014.