segunda-feira, 27 de julho de 2015

Prendas domésticas?


Chego ao consultório do geriatra, tiro a senha e fico ali como boba, de olho naquele monitor, onde se visualizam os números. Parece congelado. A minha senha é 101, mas a 96 não arreda pé do vídeo.  Olho, olho, e nada. É o bastante para embaralhar tudo na minha cabeça e começar a viagem para o mundo da divagação.
Escuto uma voz que parece vir de muito longe: 101! 101! Uma senhora, próxima diz: Não é a sua?
Hã? Levanto-me apressada e chego perto da mesa da atendente. Vou respondendo automaticamente às perguntas costumeiras: endereço, telefone etc etc.

Profissão! Profissão! Hã? Mulher Maravilha! Ops, desculpe: prendas domésticas. A moça ri, disfarçadamente, e repete baixinho balançando a cabeça, naquele característico gesto de incredulidade ou de desprezo, sabe-se lá: Prendas domésticas... Sem me olhar, diz: Agora é só esperar.
Acho sempre engraçada esta frase: “Só esperar”. Esse “só” quer dizer o quê, mesmo? Que é pouco? Que nada! Lá fiquei mofando naquela cadeira por um bom tempo, que não medi, porque me pus a rir, sozinha, raciocinando (meditando, ou nas alturas...) sobre a minha profissão: Prendas domésticas...
Mulher que não trabalha fora, hoje, está fora... literalmente, para usar expressão da moda (todos dizem “literalmente”, mesmo quando  a questão não é literal). Fora do mundo, fora dos círculos de conversa, fora da vida, enfim. É isso que pensam as outras mulheres. Ela própria, a dona de casa, acaba se sentindo assim. É como se a pessoa fosse inútil.
Pois é, dona de casa bissexta, resolvi dizer, naquele momento, que era de prendas domésticas, eufemismo que encontrei na hora, usado há muitos anos e que sempre detestei. Aliás, gosto das palavras exatas. Por exemplo: Velho. Por que velho tem que ser terceira idade, melhor idade? É feio ser velho? Deixa-se de ser velho quando se diz diferente?
E vi, mais uma vez, que ser dona de casa não é fácil e eu não tenho as tais prendas domésticas, de jeito algum.. Resolvo tocar piano, lembro: Ai, a máquina parou de funcionar. Será que a lavagem acabou? Levanto-me e vou ver. E já está na hora de fazer almoço, porque o neto chega do Inglês e tem que almoçar rápido para ir pra escola. Coloco a carne para assar e vou cortar verdura pra salada. Distraio-me, com as verduras, até que sinto o cheiro de fumaça: Ai, meu Deus, a carne está queimando. O forno estava muito quente...Vou tirar do forno e, aí, queimo os dedos na pressa. Tarde demais... E as plantas que ainda não foram molhadas? E minha palestra que não terminei de preparar? E a barra da calça do neto que ainda não fiz? E a crônica que não terminei? E a reunião do TJC? Afe!
Tenho quer fazer outra carne depressa. Não, vou fazer ovos mexidos. Mas o arroz está precisando de um pouco mais de água. O telefone toca e o interfone também. Corro a atender. Vizinha querendo subir para falar de algo. Peço pra deixar pra depois. O arroz já está queimando também. Chi! Estou atrasada.
E assim, passo o dia, correndo pra lá e pra cá.
Então, tenho prendas domésticas? Ou sou “Mulher Maravilha”?
Tentando fazer tudo e nada fazendo direito?
Que nada, sou, mesmo, é uma abusada!
Maria Francisca – 01.07.2015, após receber a notícia de que não haveria aula de música, resolve tocar piano e não consegue porque há muitas tarefas domésticas pra realizar.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Para o avião que quero descer


Um acontecimento inusitado naquela quarta de manhã.

Viagem para Salvador resolvida, passagem nos eixos, check in realizado via internet, em casa, como manda a boa regra da vida moderna, e lá vamos nós para o aeroporto.
Despachadas as bagagens, chamada para embarque, apresentamo-nos devidamente na fila de prioridade e seguimos para o avião que vimos no pátio. Conosco, por puro acaso, uma senhora que conhecíamos e que ia também para Salvador. 

Sentados, acomodados, eis que chega um senhor para o assento onde já estava meu marido. Checamos os números, ambos corretos, acionados os comissários, vimos que o nosso avião era outro. Tomamos o bonde errado...ô, amolação!

Saímos depressa, sob gozações de alguns passageiros conhecidos, mas sem achar graça alguma naquele episódio. Ao contrário, danados da vida com a falta de informação que beira a falta de respeito dessas empresas aéreas com os passageiros. No momento do embarque, e fomos os primeiros daquela fila, o único avião à vista era aquele que tomamos. Depois me lembrei de que aeronave certa estava no pátio, mas com um enorme caminhão na frente. Claro, nunca iria me imaginar embarcando ali. No momento, não tive dúvidas, encaminhei-me ao outro, levando a erro meu marido e a outra senhora.

Pois bem. Detectado o equívoco, seguimos para a outra aeronave, desta feita bem visível, e, ao entrar, já refeita da raiva que, graças a Deus, é de má qualidade, porque dura muito pouco, perguntei bem alto aos comissários que se encontravam aa porta: Como já pegamos um bonde errado, logo ali, esse avião vai para Salvador?

Os passageiros que estavam nas poltronas dianteiras caíram na risada. E nós também.
Acomodei-me, como pude, naquele espaço mais do que apertado e sosseguei meu espírito.

Entretanto, como a imaginação só cessa quando quer, de repente, ri sozinha, ao ver nitidamente a confusa cena: em pleno voo, ouço aquele tradicional bem-vindos a bordo do voo 1230, com destino a Guarulhos e, em seguida, meu brado aflito: Para, para, quero descer. Não quero ir pra Guarulhos. Vou pra Salvador. Peguei o avião errado, gente, depressa...


Maria Francisca – maio de 2015.

terça-feira, 28 de abril de 2015

PACTO COM A VIDA

"Fiz um acordo com o tempo: nem ele  persegue, nem eu fujo dele".  Mário Lago.

Seu telefone?  Seu CPF?  Seu CEP?

E assim foi seguindo o interrogatório de uma vendedora numa loja, onde comprei uma simples bijuteria.

Antes eu me negava a fornecer meus dados, uma chateação, mas vi que era mais trabalhoso negar. Em alguns estabelecimentos é uma exigência para emissão de nota fiscal. Mas ali... Querem atormentar os clientes com os torpedos, anunciando as “maravilhosas” promoções.  Antes de terminar o “interrogatório”, só para implicar, pergunto: Para que servem esses dados? Para seu cadastro. E o que você faz com meu cadastro? Uso quando você voltar aqui, responde. E quem falou com você que eu vou voltar? A pergunta fica no ar. Ela continuou a perguntar e eu a responder obedientemente. Nem ela sabia a finalidade daquele ritual. Acostumou-se a fazer aquilo, como lhe mandaram, e pronto.

Por fim, a moça perguntou a data do meu nascimento. Antes que eu respondesse: Não, não, é só dia e mês. Porque muita gente não gosta de falar a idade. Eu não tenho esse preconceito, moça. Nasci dia 11 de outubro de 1948, tenho 66 anos de idade. Ela riu. E eu saí da loja.

Caminhando pela rua, fiquei pensando nisto: Por que será que as pessoas, principalmente as mulheres, não gostam de revelar a própria idade? Medo? Mas se a idade está à vista... A menos que se faça uma cirurgia plástica geral, a idade sempre aparece. Aliás, acho até que nem assim. Aqui e ali, vai ficar algum rabo. E não adianta tratar de terceira idade, melhor idade, porque a velhice está aí a merecer cuidado e respeito, não preconceito.

Sou velha, sim, e não me preocupo. Assumo minha velhice sem medo. E ainda proclamo minha idade para quem quiser ouvir. Claro, cuido da aminha saúde, da minha aparência, gosto de roupas bonitas, mas sem os exageros da juventude, que já se foi faz tempo. Não fujo do tempo, como disse Mário lago, mesmo porque de nada adiantaria. A velhice vem, quer queira, quer não.
Fato é que amo a vida e já fiz um pacto com ela. Conheço quase todas as cláusulas, menos uma: a do término do contrato. Por que fiz um pacto assim? Conheço o Dono da Vida e confio nEle.  E, no final, ganho a Vida Eterna.

Vou vivendo alegre, como sempre fui, e ela aqui, comigo, também feliz, minha companheira, que me sustenta e me conduz. No dia em que ela não me quiser mais, viajo tranquila. Estou aprendendo o caminho, pouco a pouco.

Não mais vou ter esse problema de pacto, de velhice, de beleza, de cuidar da saúde, nada disso. Vou morar num lugar distante, numa casa diferente.  Lá nessa Casa, onde passarei a viver, tem muitas moradas e todos são saudáveis e felizes (Jo 14, 1-2). Claro, se eu cumprir todas as cláusulas do contrato. A mais difícil, mas a mais importante, pois dela dependem as demais é esta: Amai-vos uns aos outros como eu vos amo (Jo 15,12). Dia a dia, esforço-me, mas, humana demais, caio, levanto, tento de novo e vou levando. Espero poder cumprir a minha parte no contrato.

E vou caminhando nesta estrada que, como diz Fábio de Melo, não fica no chão sob os meus pés, mas dentro de mim mesma.

Maria Francisca – março de 2015, tempo quaresmal.


sexta-feira, 24 de abril de 2015

CAUSOS - TERCEIRO DA SÉRIE

Água com adoçante acalma?

 
Para Elzimar
Eu era titular da 6ª Vara de Vitória, mas atuava no tribunal, porque o TRT-ES, na época, era composto de apenas seis juízes de carreira e dois classistas e não podia ser dividido em turmas. A lei proibia.  Havia sempre necessidade de um juiz convocado para dar conta da imensidão de processos, principalmente quando um dos membros titulares se afastava em gozo de férias ou em licença médica.
O gabinete dos juízes convocados, que nem merecia o nome de gabinete, funcionava num quase porão, sem um mínimo de conforto. Tinha até mofo. Nem tudo era ruim, porém. As servidoras eram ótimas, todas comprometidas com o trabalho que realizavam, embora em condições mais do que adversas. E o trabalho rendia.
Um dia, analisava, como relatora, uma ação rescisória, com número expressivo de autores, todos servidores de determinado órgão público. O objetivo buscado era rescindir uma sentença que lhes havia negado o pedido de adicional de insalubridade.
A decisão impugnada julgara improcedente o referido adicional, porque a perícia realizada concluíra pela inexistência de qualquer agente agressivo no ambiente de trabalho. Os fundamentos da ação rescisória eram simples, aliás, simplórios, e, portanto, desprovidos de força processual. Já à primeira leitura, previ o insucesso daquela ação.
Pois bem. O órgão público, no limiar de nova gestão, resolveu fazer um acordo para pôr fim à ação rescisória e antecipou todo o pagamento ao advogado.
Ele chegou ao gabinete dos juízes convocados muito feliz e, depressa, dirigiu-se a mim, mostrando o termo do acordo. Li o documento com atenção e disse: Doutor, desculpe, mas não posso homologar um acordo desses e tenho certeza de que os demais colegas vão acompanhar meu voto. E expliquei os motivos, inclusive a ilegalidade do ato.  O advogado nada disse. Sentou-se e ficou ali quieto, olhando o nada, pálido como cera.  
Preocupada com a mudez e com a aparência  do advogado, pedi a uma servidora  para buscar água com açúcar para ele, no andar de cima, já que o gabinete, como disse, era desprovido de tudo. Enquanto isso, eu, patética, abanava-o com uma capa de processo, pois parecia em vias de desmaiar.
A servidora retornou bem depressa e o advogado tomou a água. Foi se acalmando, pouco a pouco, melhorou, agradeceu e saiu apressado.
Mal ele acabou de sair, a servidora, rindo, me disse: Dra. Francisca, eu não encontrava açúcar de jeito algum, então coloquei adoçante na água. Será que água com adoçante acalma?
Rimos as duas...
Maria Francisca -  abril de 2015.


domingo, 22 de março de 2015

Se sorrir, arrisca-se a ganhar um abraço.



Sou do tipo que cumprimenta todo o mundo. Basta que alguém olhe para mim. E um papo também não dispenso.  Uma colega me diz que eu tenho assunto até pra gente chata. Ora, por que não? Os mineiros não têm fama de bons de prosa?

De vez em quando faço experiências. Saio por aí cumprimentando todo mundo só para ver o resultado. Uns olham e respondem desconfiados. Outros respondem firmes.  Outros fazem cara de paisagem.  É que o mundo anda tão difícil e triste que pessoas fogem de pessoas. Talvez fosse melhor viverem sozinhas, só com seus aparelhinhos, tipo celular, para conexão com quem desejarem, sem necessidade de ficar perto de gente. Ou com seus cachorrinhos. Olhar nos olhos compromete.

Outro dia, andava no calçadão com meu marido, quando uma moça olhou-me, sorridente. Cumprimentei-a e meu companheiro perguntou-me quem era. Eu disse que não sabia. E, ele: Você é engraçada. Cumprimenta todo mundo e nem sabe quem é. Basta olhar pra você. Se sorrir, então, arrisca-se a ganhar um abraço... Respondi: Depois que li aquele texto sobre o abraço, até que seria bom.  Eu ficaria com dois corações, como fala o matuto da crônica.

A propósito, li no jornal “A Gazeta” o seguinte comentário de Jorge Vidor: “Nada menos que 700 advogados trabalham hoje na Petrobras. Diante das confusões que envolveram a companhia, tem executivo lá pedindo parecer jurídico até para dar bom dia”. Claro que é uma brincadeira, numa situação esdrúxula, mas serve para ilustrar nosso dia a dia, com as pessoas com medo de tudo. Que mulher é essa me cumprimentando? Que será que ela quer? Assim, a diferente ou a esquisita sou eu.

Se é preciso paz pra poder sorrir e amor pra poder pulsar, como diz a bela música de Almir Sather, é muito difícil cumprimentar e, mais ainda, dar um abraço, porque, hoje,  a paz está só no dicionário e o amor é líquido.

Melhor e sem perigo algum é o contato apenas virtual, onde posso falar do que quiser, mostrar-me feliz quando ninguém vê minha cara de sofrimento,  colocar um tal de kkkk, de algo que nem graça achei, exibir meu último penteado, minha viagem maravilhosa, inventar coisas etc, etc.

Perigo, perigo mesmo, é o real, é o pé no chão, é olhar nos olhos, é comprometer-se com as pessoas.

Sou, então, a esquisita. De outro tempo. Do tempo real. Quem sorri para mim, arrisca-se, mesmo, a ganhar um abraço.

Maria Francisca – outubro/2014.

 

segunda-feira, 9 de março de 2015

Castelo e Sonhos



Hoje vi um castelo. Daqueles grandes, com direito a torres, prisioneiros, ou melhor, prisioneiras (porque as torres sempre tiveram prisioneiras, por obra e graça de alguma bruxa). Tinha também Rapunzel, ou seja, era um castelo de verdade. E estava escrito: “Castelo”, pra tirar qualquer dúvida.

O detalhe é que Rapunzel naquele momento não estava à vista. Talvez estivesse com medo daquele mundão de gente que passava em frente ao castelo. Ou talvez dormindo, porque ainda era bem cedo.

Ia eu para o aquecimento dos Passos de Anchieta, saindo de Barra do Jucu para chegar a Ponta da Fruta, num solão de rachar, ou melhor, de esfolar qualquer pele desprotegida. E ali, bem ali naquela rua, surge aquele castelo.  Sempre tive uma queda por Rapunzel, apesar de nunca ter cultivado tranças como uma das minhas irmãs que, infelizmente pra nós e felicidade pra ela, espero, já está no Infinito.  As tranças dela por certo dariam para levantar um príncipe, tão grandes e fortes. Era um belo cabelo preto, que ela usava enrolando as tranças em volta da cabeça, como uma coroa. Só que um dia, pena, voltou de uma viagem a Bom Jesus da Lapa sem os cabelos. Com eles curtinhos. Resultado daquelas famosas promessas que as mães faziam e as coitadas das filhas precisavam cumprir, mesmo contra a vontade. Acabou a força, como Sansão, e foi também o fim da beleza daqueles cabelos pretos e brilhosos. E, pra completar, adeus minha motivação pra sonhar com Rapunzel. 

Fiquei olhando o castelo e me lembrando dessas coisas, das bruxas e princesas que povoaram minha infância e eis que surge Fiona, ainda princesa, no colo do seu Shrek. Uma princesa muito feia, nem chegava aos pés da Rapunzel. Mas, aí, acordei para minha realidade: as princesas eram bonitas porque eu as via com os olhos da infância, da inocência, quando tudo é bonito e colorido. Pior é que Fiona ficou ainda mais feia depois pra se casar com seu príncipe mais do que feio que, ela, certamente, achava bonito. O amor, sempre o amor, vendo as coisas com outro olhar.
E aí veio o burro, com aquela implicância toda, aquela amolação, e eu não quis mais ver princesa, nem príncipe, nem Castelo, porque perto de mim passavam bravos lutadores (contra moinhos de vento), caminhando, caminhando, para desafiar não sei o quê e eu os segui, novamente, porque Dom Quixote eu sempre fui e acho que vou continuar sendo, mesmo sem querer. Então, ando, ando, pareço um judeu errante, como diria Adélia Prado. Não porque penso estar minha saúde no calcanhar, mas porque gosto desse exercício diário, enquanto vou reparando aqui e acolá, seja gente, sejam castelos ou simples casinhas com seus cachorros, pequenos ou grandes, mas sempre nos dando sustos. Caminhei a manhã inteira e parte da tarde. Cansada e feliz da vida.
Retorno a casa e chego à varanda, para ver o mar com suas enormes ondas a cair na areia com estrondo. Olho para cima e fico encantada com o colorido do céu, cheio de parapentes flutuando no ar.

Ai, meu Deus! Que vontade de voar!
E ali fiquei a  sonhar...
Maria Francisca – 21 de fevereiro de 2015.

sábado, 15 de novembro de 2014

ACENDA UMA VELA


De vez em quando, revejo textos, crônicas ou poemas preferidos. Desta vez, coube a Jorge de Lima fazer a minha alegria. Tirei da estante Poesia Completa e, sem surpresa, vi que estava marcada a página do soneto O acendedor de lampiões, meu preferido. Reli e fiquei pensando na primeira estrofe (Lá vem o acendedor de lampiões da rua! Este mesmo que vem infatigavelmente, Parodiar o sol e associar-se à lua Quando a sombra da noite enegrece o poente). Energia elétrica nem pensar. As ruas, escuras, dependiam desse homem, que caminhava, caminhava e, infatigavelmente, iluminava as cidades.
O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry, também fala do acendedor de lampiões. Só que seu planeta era tão pequeno que ele, mal acendia, tinha que apagar depressa a luz, porque já era dia. E nem podia dormir. Limitava-se a acender, apagar, e repetir, incansavelmente Bom dia, Boa noite, cumprindo o regulamento que não mudava nunca, apesar de o planeta ter mudado e começado a girar mais depressa. Era fiel ao regulamento. O Pequeno Príncipe, depois de fazer perguntas e mais perguntas, sugerir atitudes ao acendedor, concluiu: Esse aí seria desprezado por aqueles outros, pelo rei, pelo vaidoso, pelo beberrão, pelo empresário. No entanto, é o único que não me parece ridículo. Talvez seja porque não se preocupe apenas consigo mesmo.
A minha cidade natal tinha uma usina hidrelétrica, moderna para aquela época, naquele fim de mundo, mas com sistema manual. Aí, precisava do acendedor de lâmpadas. Chamava-se Manoel e tinha o apelido de Manoel da Luz, porque ia de rua em rua, com um grande bastão, na ponta um interruptor, acendendo as lâmpadas da Cidade. Mal insinuadas as sombras, lá vinha o Manoel da Luz, equilibrando-se em sua bicicleta Um dos nossos deleites era vê-lo, com toda perícia, sem descer da bicicleta, cutucar o poste e, como seu bastão mágico, fazer brotar bela e longa claridade, como a luz da lua.
Jorge de Lima diz, na penúltima estrofe do soneto: Triste ironia atroz que o senso humano irrita: Ele que doira a noite e ilumina a cidade, Talvez não tenha luz na choupana em que habita. Talvez, mas concluo, com o Pequeno Príncipe, que esse acendedor de lâmpadas também não pensava em si mesmo, cumpria seu dever de iluminar a cidade, com chuva ou sol. Por isso era tão querido pela população.
Em Mateus 5, 14-16 está escrito: “Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha nem se acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire, mas sim para colocá-la sobre o candeeiro, a fim de que brilhe a todos que estão em casa. Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus”.
Não seriam esses acendedores um símbolo do cristão de que fala Mateus? Com seu trabalho incansável traziam alegria, porque traziam luz. E não pensavam em si, mas na tarefa que deveriam realizar, com cansaço ou com chuva, lá estavam eles, produzindo a magia de afastar as trevas.  Aqui, vale a simbologia da frase que li faz tempo: Não grite contra a escuridão, acenda uma velha.  E nós nem precisávamos gritar, tampouco precisávamos de velas. Tínhamos nossos vagalumes humanos, nossos mágicos da luz que nos impulsionavam à alegria.
Fico pensando nisso tudo e questiono a mim mesma, onde colocar uma vela, após essa avalanche de denúncias mal ou bem formuladas, esclarecidas ou não, verdadeiras ou não, e após uma eleição, em que se viu tanto ódio? Alguém verá? Terá força? Temos, hoje, acendedores de lampiões?

Maria Francisca – outubro de 2014.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O MENINO, A CHUVA E O PÃO



Acordei às seis da manhã, abri a janela e vi que o dia nascera muito claro. Chegando à portaria, surpresa, uma grossa chuva dava os últimos suspiros, com pingos salteados, obrigando transeuntes madrugadores a usarem capuzes ou guarda-chuvas. Lembrei-me do poema Caso pluvioso de Drummond (“Era chuva fininha e chuva grossa, matinal e noturna, ativa… Nossa!”) e ri sozinha, quando me lembrei de que no poema ele diz que descobriu que Maria é que chovia. Será que era eu que chovia? Está sempre chovendo nos meus dias...
No calçadão, vi que o sol se esgueirava aqui e acolá, como a fugir de algumas nuvens grossas. Parei uns instantes, a tempo de contemplar os ralos faróis dourados caindo sobre o mar.
Continuei meu trajeto, pensando nessa natureza tão versátil e tão volúvel. Ora chove, ora faz sol. Como os humanos. Ora somos tristes, chuvosos, ora somos o próprio sol, ofuscando de brilho ou tisnando na quentura.
Pensando nisso e já retornando, vi um novo cenário. O céu ficou escuro, a chuva chegou em cântaros e a enxurrada engrossava os ralos de águas pluviais, os carros, em desabalada correria, jogavam água nos pedestres e todos fugindo como podiam.
Vi um menino correndo, gargalhando, e metendo-se por um portão de uma daquelas portarias elegantes da Praia da Costa.
Comecei a pensar num menino que vira na véspera, na chuva. Noite alta, festa acabando, chuva caindo, um menino ensopado e um guarda-chuva cedido em troca de algumas moedas. Era magrinho, muito bonito e sorria. Nem pensava no resfriado que poderia sofrer depois, nem sentia o frio que fazia naquela chuva, nem via que estava todo molhado. Só pensava nas moedas. Precisava daquelas moedas. O pai sumiu no mundo, a mãe acamada, irmãos pequenos, as moedas, sim, as moedas seriam o pão na manhã seguinte, quem sabe o leite, o café, quem sabe ganharia mais, quem sabe, quem sabe...
E todos queriam o guarda-chuva do menino. Ele já estava molhado mesmo! Ah! Quer uma moeda! Uns: Aqui, menino!  Outros: Pena, não tenho nada. O menino contou suas moedinhas, recontou e viu que perdera uma, na corrida de volta dos carros para ceder o guarda-chuva para mais uma pessoa. O último vai saindo. Quem sabe vou ganhar mais uma, pensou. E ganhou: vinte reais. Vinte reais! Que maravilha... O pão e o leite garantidos...
O dia já ia raiando. O menino foi-se. Teria passado na padaria? Teria ido pra casa? Teria ido dormir?
De repente, vi-me parada no calçadão e toda molhada. Voltei pra casa depressa, fincando o pé no chão, bem forte, antes que outros meninos pobres ou ricos, sorridentes ou tristes, viessem tomar conta de meu dia.
Maria Francisca – outubro/2014.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

ONDE ESTARÁ PEDRO?

Como homenagem ao dia da criança, posto este poema, desejando que um dia todos os Pedros do Brasil tenham seus direitos garantidos pela Constituição Federal e possam crescer saudáveis e felizes.
 
Trata-se da história contida na revista "Trabalho Infantil" da ANAMATRA (Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho). É de uma criança chamada Pedro, de uma família muito pobre, que era bom aluno, mas, de repente, começou a faltar às aulas, perder notas,  sempre triste,  até que parou de ir à escola. Aí, as crianças, perguntam:
 
“Onde estará o Pedro?
Por onde andará?
Não veio à escola. Na sua casa não está.
Dizem que está nas ruas,
Vendendo balas nas esquinas
Sabor laranja, morango e limão...
Frutas colhidas nas fazendas
Por mãos pequeninas
De centenas de meninos e meninas.
Perguntamos: Onde Pedro está?
Mas, também, onde estará Maria, Cristina, João...
Trabalhando no campo? Na cidade? Ou no lixão?
São crianças invisíveis aos olhos de muita gente grande.
Não enxergam suas idades,
Maquiam de bem a maldade.
Ainda pequeninas começam a trabalhar
Enriquecendo uns poucos nos campos e nas cidades
Prejudicando quantos Pedros?
Por isso terminamos repetindo a pergunta:
Onde ele está? Por onde Pedro andará?”
 
 
 

domingo, 28 de setembro de 2014

UM MISTÉRIO E UM PERIGO: VIVER


A placa ainda está lá. Só não brilha mais.
As portas fechadas mostram o vazio que se instalou na casa. Banners, tapando a varanda e impedindo a entrada do ar e do sol, não escondem a tristeza que ainda deve reinar no coração de quem avista aquela placa e, principalmente, no coração da família.
Ali, era tudo alegre e bom. O dono, jovem, mostrava vigor e otimismo que, num átimo, apagou-se para sempre. Filhos esperavam-no ao fim do dia.  Ele não chegou. Ninguém sabia o seu paradeiro. Só o vento e o mar poderiam dar a resposta.
O vento, com seu canto noturno e soturno, ajudou a arrastá-lo para longe, bem longe, onde a vida terminava aqui e começava noutro lugar, talvez mais belo, talvez mais humano, talvez mais alegre, talvez mais feliz.
Ninguém pode entender uma pessoa que tira a própria vida, se “a medida do homem é a vida”, como disse João Cabral de Melo Neto, em belo poema. Ninguém sabe o que vai no coração e na alma: o sofrimento deve ter sido muito grande, maior do que poderia suportar... Ou seria a desesperança?  Ou, quem sabe, um momento, um momento só, de loucura? Só Deus para saber.

Ítalo Campos, psicanalista e poeta, num ensaio para o caderno Pensar de “A Gazeta” ( 19.04.2014), busca respostas para o ato final escolhido por muitos que caminham ao lado da arte, porque, segundo ele, o escritor ou  o pintor livram-se de seus males provocados pela crueldade do mundo, lidando com um mundo idealizado, misterioso, longe de nosso alcance, por serem mais sensíveis. Então, como explicar suicídios de grandes autores, como Hemingway, Virgínia Wolf, Florbela Espanca e tantos outros? E acrescenta que é perfeitamente normal nós, insensatos e, em contato com alguma tristeza ou perda irreparável, pensemos na morte como saída, mas não chegamos a praticar o ato.
Mas muitas chegam ao ato. Penso que a arte não dá conta desse mistério insondável, além de perigoso, como disse o Diadorim, de Guimarães Rosa.   E todos podem passar por maus momentos e não conseguir suportá-los. Tanto artistas como pessoas comuns são vulneráveis.
Li, certa vez, não sei bem se em Hermingway, logo ele, que pôs fim à própria vida, que um homem estava indo furtar ovos num quintal. Perto do lugar em que pularia o muro, havia uma enorme árvore e, sobre ela, um homem, prestes a se enforcar. Já tinha a corda enlaçada ao pescoço.  Aí, nosso primeiro personagem disse ao possível suicida: Que é que está fazendo aí? E ele: Vou me enforcar, porque não tenho mais esperança. Ao que o interlocutor respondeu: Deixe de mentira, se você vai se enforcar é porque acha que morrendo vai ser melhor. Então, você tem esperança, sim. Desça daí, já! Venha me ajudar! E o homem, obedientemente, desceu da árvore. Oxalá, as coisas pudessem acontecer como na ficção, mas é um exemplo de que ninguém sabe o que move um suicida.
Albert Camus afirma, em “O mito de Sísifo”, que a questão é saber se a vida vale ou não vale a pena ser vivida. E, por isso, muitas pessoas morrem: acham que a vida não vale mais a pena. E pessoas outras há que morrem por uma ideia, diz o escritor, uma ideia que lhes dê razão para viver. Ou seja, a ideia que é a razão de viver é a mesma que dá razão para morrer. Será que alguém reflete antes de cometer suicídio? Ou: há suicídio premeditado? Pode haver, quem sabe?
Há poucos dias, perdi um colega. Suicídio, contaram. Era jovem, bonito, culto, talentoso, poeta, fotógrafo. Tinha tudo para viver bem. Dizem que estava deprimido e sofria muito. Nada sei, ao certo. Sei que a vida, por si, já é um sofrimento. As brigas, as guerras, o tráfico, a pobreza, a corrupção, as drogas... Para as pessoas mais sensíveis, então... Drummond diz, num poema, que os delicados prefeririam morrer.
Já o jovem do início do texto os jornais noticiaram que se envolveu em situação embaraçosa de corrupção e estava denunciando os corruptos por meio virtual. A pressão foi tanta, que ele não suportou. A corrupção, essa praga que assola o mundo todo, e nosso País, principalmente. Não sei se é verdade. Só sei que algo barrou esse caminho, como o caminho do meu amigo, que poderia ser iluminado, e iluminar a vida de muitos com sua arte, sua vida e seu trabalho. E a pergunta se renova: Por quê? Só Deus poderia dar a resposta. Ninguém mais.
Com meu turvo olhar sobre o mundo falo com Drummond, mesmo sabendo que nada, nada mesmo, nesta vida, é definitivo:
“Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.”

 

Maria Francisca – início de maio de 2014.