quinta-feira, 31 de julho de 2014

CAUSOS – 2º DA SÉRIE


VOGAL

Na Justiça do Trabalho, até 1999, além do juiz concursado e de carreira, havia juízes leigos, em todos os graus de jurisdição. Por isso, as atuais Varas denominavam-se Juntas de Conciliação e Julgamento. Esses juízes leigos denominavam-se vogais. Na Constituição Federal de 1988, eles passaram a ser denominados juízes classistas. Então, ficaram muito contentes, porque, segundo pensavam, igualaram-se aos juízes de carreira.  Isso mais se consolidava, na medida em que a imprensa, muitas vezes mal informada, quando tratava de um classista dizia simplesmente juiz do trabalho. Então, eles se aborreciam quando alguém os chamava de vogais.
Numa audiência em Belo Horizonte, depois de uma longa discussão sobre um acordo muito difícil, um classista se desentendeu com um advogado e ambos ficaram muito nervosos, necessitando de minha interferência para que a discussão não terminasse em briga. O acordo saiu, mas o advogado ainda estava muito bravo.

Ao sair da sala, lançou um olhar raivoso para o classista e disse, bem alto, como um xingamento: SEU VOGAL!
Todos riram e o advogado acabou por rir também, descontraindo o ambiente.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

SIMPÁTICO OU SIMBÓLICO?




  Hoje (7/2/2014), saí para minha caminhada matinal. A preguiça foi tanta que a caminhada não foi tão matinal assim. O sol já ia alto, forte e de uma quentura de amedrontar.  De repente, um ventinho frio arrepiou-me. Prenúncio de chuva, pensei. Andei algumas quadras sob aquele vento gostoso, providencial para arrefecer o calor que assola nosso bairro esses dias, quando uma chuva torrencial desabou.

O calçadão estava lotado. Num minuto, esvaziou-se. Uns se esconderam sob marquises, outros entraram em quiosques, alguns, sob enormes guarda-sóis, outros voltaram pra casa correndo. Enfim, todo mundo fugiu da chuva.
Eu, alegremente, continuei a caminhada, bendizendo aquela chuva maravilhosa. Toda ensopada, era alvo de alegres brincadeiras do pessoal fugido e escondido da chuva, ou seja, eram todos simpáticos. Por que seria, se nos dias anteriores, caminho, caminho, encontro n pessoas no trajeto, nem sequer um cumprimento recebo? Minha caminhada na chuva seria simbólica?
Interessante que eu me lembrei de que acontecia a mesma coisa quando praticava corrida. Ainda não era tão comum as pessoas comuns praticarem caminhadas ou corrida. As academias não eram “obrigatórias” como hoje. Só os atletas profissionais dedicavam-se aos exercícios físicos com afinco. Eis porque eu era sempre parada nas ruas, com brincadeiras, do tipo, vai, Joaquim Cruz!... Vai correndo assim pra onde? Está correndo da polícia? Ou parando o carro ou a bicicleta e oferecendo carona, na brincadeira. Uma simpatia só. E, muitas vezes, correndo na chuva, brincavam comigo, como hoje. Paravam para ver minha cara (acho que pensavam que eu era meio doida) e brincavam: Vai derreter! E quando participei de competição, então? Ganhei medalha de ouro na minha categoria, em corrida de rua de dez quilômetros, e todos me aplaudiam. Depois da competição, chegando ao clube, todos brincavam, riam, falavam comigo.
Simpatia é uma palavra de origem grega.  É formada pelo prefixo sym (juntamente, ao lado de, em favor de, ao mesmo tempo) e pathéia (aquilo que se experimenta em relação às paixões da alma). Então, simpáticas seriam pessoas que nos atraem e conquistam pelo seu carisma, pela sua personalidade ou pela sua postura diante da vida.
Segundo Padre Fábio de Melo (Quem me roubou de mim?), símbolo é toda e qualquer realidade que constrói uma ponte por onde podemos alcançar o outro lado. A palavra vem do grego, sym-ballein, que significa reunir, juntar. E o ato de reunir ou juntar, efetivamente, constrói pontes.
Aí, fui juntando os pontos, construí a ponte para entender por que todos faziam alegres brincadeiras comigo. Eu, naquele momento, era um símbolo. Símbolo talvez da coragem de enfrentar aquela ventania. A minha postura de correr na chuva conquistou aqueles caminheiros que ali estavam. Então, tornei-me simpática por estar fazendo algo inusitado e, ao mesmo tempo, um símbolo para aquelas pessoas que estavam escondidas da chuva.
É interessante observar que todos nós procuramos um ídolo, um símbolo. Seja de alegria, seja de coragem, seja de beleza, enfim, todos querem ser iguais a alguém.  Por isso, brincamos quando vemos alguma pessoa que, por um desses motivos, admiramos: Quando crescer, quero ser igual a você. É uma coisa boa, mas  perigosa, aliás, como tudo na vida. É que sobre a sociedade moderna paira uma sombra. A sombra da falta de identidade, a sombra da ausência de referências.
As crianças de hoje têm ídolos do bem? Mais uma vez, a questão da educação, uma das coisas mais importantes na vida. Pais que se preocupem com os filhos e professores que ensinem seus alunos a pensar, que lhes mostrem um mundo que pode ser do bem, mas que pode ser do mal, dependendo da escolha de cada um.  E só pode escolher quem pensa.
Voltando à minha ousadia, retornei a casa ensopada, mas com o coração leve, por ter tido a ventura de andar na chuva, quando todos fugiram e na sensação (já vem aí a vaidade assumida) de que fui símbolo por um dia, mesmo na minha velhice.

Maria Francisca, fevereiro de 2014.

 

 

 


sexta-feira, 11 de julho de 2014

CADÊ A COPA?



Mudou algo em sua vida?
 – Hã? Hã?
O vexame de ontem.
Ah, não! Não mudou nada.
Pois é.  Sigamos em frente...

Foram conversas que tive ontem, muitas vezes, nas minhas andanças pelo quarteirão, indo ao dentista, costureira, feira etc. O povo, perplexo. Reclamando sempre daquele fiasco da seleção. E eu, na minha, nem ligava. Queria que o Brasil ganhasse. O povo merecia isso, pelo menos, mas daí a ficar triste, eu, hein?
 
Há tanta coisa ruim no Espírito Santo, no Brasil e no mundo que é até um despropósito eu ficar triste porque o Brasil perdeu um jogo e a esperança do hexa.  Os jornais noticiaram, hoje, que um médico no ES precisa atender, em média, a cada 12 horas, 200 crianças. Não há pediatras. Os hospitais tanto públicos como privados estão sem plantão pediátrico por falta de médicos. Tem cabimento? Há escolas públicas onde as crianças ainda não receberam o uniforme. E estamos em julho. Outras escolas há onde alunos que estudam em regime de tempo integral não têm espaço dentro da escola.  Que tempo integral é esse?
 
 E eu ainda vou me entristecer com um timezinho que só pensa no dinheiro, não joga junto sabe-se lá há quanto tempo e, portanto, não pode ser uma equipe?  Além de tudo, apequenado pela falta de um jogador que se machucara e dá um “branco”, como reverberou o técnico? Será?
E há outra coisa: ano de eleição. Já imaginei o povo não dando bola pra mais nada depois do tal de hexa. Então, que se dane essa vontade de hexa. O povo não precisa de hexa. O povo precisa de educação, saúde, saneamento básico, alimento, atenção, fraternidade. Se essa alegria com o futebol não turvasse os demais objetivos, tudo bem, mas ninguém mais pensa em nada quando um jogo da seleção está em evidência. Por isso, já tachei o futebol de ópio do povo.
Quem falou que não ia ter copa? Os mesmos que criticaram estavam lá querendo ingresso, vestindo a camisa amarela e torcendo pelo Brasil. Torcer pelo seu país é característica de um povo que ama sua pátria,  mas não a ponto de virar a casaca dessa forma. Um dia, na rua, fazendo baderna, para não ter copa. No outro, cantando nas portas de estádios, esmolando ingressos.
 
E no dia do jogo do Brasil com Alemanha, nosso vexame maior, fui a diversos lugares. Parecia que o povo estava doido. Uma aflição...Tomei vários esbarrões no supermercado. Nem olhavam para pedir desculpas, como se tivessem esbarrado num cabo de vassoura. Os empregados mal-humorados, talvez porque não iriam ver o jogo em casa. Sabe-se lá.  O trânsito um horror. O nervosismo no ar.  É ópio ou não é?
Agora, parece que o povo acordou. A derrota para a Alemanha serviu pelo menos pra isso. Então, que a copa acabe depressa para o Brasil voltar à rotina.
Maria Francisca – julho de 2014.

sábado, 5 de julho de 2014

Pega Ladrão



Morei em Salvador durante certo tempo, num enorme condomínio no Bairro Caminho das Árvores. Era exatamente atrás do Shopping Iguatemi. Para chegar ao nosso prédio, passávamos dentro do shopping, subíamos uma escadinha externa, num morro, por puro comodismo, claro.
E aquela escadinha era ótima, porque, além de encurtar em muito nosso caminho, ainda nos proporcionava momentos de lazer, no shopping, na volta do trabalho. Muitas vezes, retornando cansada, entrava no shopping, para alcançar o atalho para meu prédio, quando me deparava com saraus, orquestras e ficava ali parada, apreciando tudo e chegava a casa descansada da lida, do transporte público e do trânsito caótico, já naquele tempo.

Pois bem. Eu exercia a função então denominada Fiscal do Trabalho. Num início de semana, ia eu tranquilamente subindo a rua para chegar a uma empresa na Praça da Sé, onde faria uma fiscalização de rotina. Segurava com força a minha pesada pasta com processos que teria que analisar e pastas e fichas de empresas que teria que visitar. Tudo em papel. Não vivíamos, ainda, a era virtual. Carregávamos papeis e mais papeis.

 Eis que de repente, alguém agarra a minha pasta, eu me viro e começo a lutar com o enxerido. Agarrei a pasta com as duas mãos. E ficamos ali um tempinho, medindo forças, ele começou a ter dúvidas se tomava minha pasta ou meu relógio, arranhava meu braço e o relógio nada de sair, até que se cansou e se mandou para meu alívio. Segui meu caminho, trabalhei e voltei para casa no fim do dia, em paz.
Alguns dias depois, Júnior, meu filho, na época com 13 anos, chegou a casa chorando, descalço, de cuecas e camisa do uniforme, apenas. No caminho de volta das aulas, outros enxeridos, desta feita, alguns adolescentes, tomaram-lhe a calça jeans, a mochila, o tênis e jogaram seus livros no matagal ali perto.

Mais alguns dias e eis que algo semelhante acontece com Gláucia, minha filha de 16 anos. Retornando da escola, subia a bendita escadinha atrás do shopping, quando outro enxerido, adulto, tomou-lhe o lindo relógio que trazia ao pulso.

E ficamos em estado de alerta, depois disso tudo. Imagine: em poucos dias, três assaltos. Sem lesão corporal, mas com lesão na alma, porque o medo instalou-se entre nós. E tratamos de encontrar um transporte para o Júnior para ele não ir a pé para a aula sozinho, cuidamos de ficar atentos naquela escadinha e alertamos os demais moradores para o que acontecia naquele trajeto. E ficamos sabendo que não éramos as únicas vítimas.  Então, olho aberto, falávamos entre nós.
Um dia, voltava do trabalho, com uma pasta nos braços e na mão direita uma bolsa quadrada de couro, cuja estrutura era de madeira. Uma malinha, enfim. Era por volta de 18 horas e já estava meio escuro, apesar da iluminação artificial, porque ainda estava naqueles momentos em que não era dia, mas também ainda não era noite.  Subia a escada, quando, olhando para o alto, vi um senhor sentado num dos degraus. Olho vivo. Hoje ele não me pega, pensei. Armei-me de toda a coragem do mundo, minha malinha como arma, em posição de ataque, a voz muda e a testa enrugada, pisava com firmeza os degraus, mirando fixamente o suposto ladrão.  A cada passo, uma ameaça para aquele que se intrometera no meu caminho daquela vez.

Fui chegando firme perto daquele homem e observei, com horror, que o homem estava com medo de mim. Minha expressão era tão feroz que causou espanto naquele que eu pensara ser um bandido. Ele se encolhia e, ao meu visor, estava a ponto de sair correndo.
Recompus-me, passei ao lado dele e, bem alto, cumprimentei-o, com um sonoro Boa noite! Nem esperei resposta e nem me lembro se a deu, e segui, rindo sozinha daquele meu disparate. O pretenso ladrão deve estar pensando até hoje que, naquele caminho, era sempre possível encontrar-se uma doida.

Maria Francisca – março de 2014. Sábado de carnaval.

 

domingo, 22 de junho de 2014

CAUSOS – 1º DA SÉRIE



                                                       AQUELA JUÍZA É O CÃO

Na Justiça do Trabalho, como nos Juizados Especiais,  quando o autor não comparece à primeira audiência, o processo é arquivado.

Corria o ano de 1994. Antes da lei 11.280/2006 que deu nova redação ao inciso II do art. 253 do CPC quando acontecia situação de arquivamento, o novo processo ajuizado era sorteado e poderia cair em qualquer Junta ou Vara. Então, era possível escolher-se o juiz, ou melhor, era possível, pelo menos, recusar, por vias transversas, um juiz que não se desejasse para atuar no seu processo. Era só deixar arquivar e esperar novo sorteio, quando entrasse com novo pedido.

Eu era presidente da então da 3ª Junta de Conciliação e Julgamento de Vitória, mas como antes trabalhava em Linhares e logo que vim para Vitória, passei a ser sistematicamente convocada para atuar no Tribunal, muitos advogados só me conheciam de nome e isso provocava situações engraçadas.

Um dia, estava eu no elevador bem lotado e um advogado conversava com uma senhora, que entendi ser sua cliente. E dizia: Quando chegarmos ao andar da Junta, entro na sala de audiência, para ver quem é o juiz que está atuando, porque se for a juíza Maristela*, faço um sinal e você se manda, porque aquela mulher é o cão.  Eu ali escutando e com vontade de rir, premeditando o assombro que causaria a ele, quando descobrisse quem eu era.

Aí, o elevador parou num andar, um advogado me viu e me gritou de lá: Dra. Francisca, que prazer vê-la aqui! O coitado do advogado que acabara de falar aquele disparate, nem olhou pra trás. Saiu atropelando todo o mundo e se safou porta afora para se livrar de olhar para mim.

Acredito que nunca mais ele vai falar qualquer coisa em elevador.

* Nome fictício.

 

 

Tem dono!

 
Céu encoberto por uma nuvem escura e o frio se faz sentir. Olho pela janela e vejo uma chuva fina já começando a cair, o que afasta a minha coragem para a caminhada matinal. Chuva não me amedronta, mas frio, sim. Então, já vou procurando colocar a bicicleta ergométrica na frente da televisão, para que eu possa me exercitar, sem estresse, uma vez que exercício aeróbico monótono não é comigo. Tenho que me distrair, enquanto pedalo.

Ligo a televisão e sintonizo no programa da Ana Maria Braga. Começo a pedalar e surge um quadro sobre uma mulher que deseja ser poderosa. Pensei: Opa! Quero ser poderosa também. Decepcionei-me, entretanto. O poder a que se referia a apresentadora era do ter. Roupas bonitas, cabelos cortados e de cor diferente. O poder de modificar-se, arriscar-se, mas apenas em relação à aparência. Quis ver o rumo daquela história e fui assistindo. A moça sendo acompanhada para compras. No cabelereiro, sendo instruída para arrumar o cabelo, maquiar-se, ganhando brindes da Avon, para se embelezar mais, carregando inúmeras sacolas de lojas e o final apoteótico: a mulher desfilando com roupas novas, cabelo cortado, bem cuidada e maquiada, à altura do título de poderosa. O marido da mais nova poderosa da TV disse ao Louro José: Ela é muito bonita e ficou mais bonita ainda, não é? Mas tire o olho, porque esta já tem dono.

Aquela palavrinha “dono” não me caiu bem. Incomodou-me aquela resposta do marido. A palavra empacou na minha cabeça. E, teimosa e reincidentemente, batia na trave.

Acabei meu exercício, a chuva caia agora copiosamente, o que me impedia de sair para as providências que desejava tomar naquele dia. Então, fui ler os jornais e, como sempre, muita notícia de violência contra as mulheres. Um companheiro havia dado três tiros na companheira, um outro, após bater bastante na mulher, trancou-a no quarto, mas ela conseguir passar um bilhete por baixo da porta e pediu socorro, outro, ainda, deu facadas na ex-mulher e, depois, ainda chorava diante dos repórteres.  E muitos outros casos estavam ali estampados. O jornal “SBT Brasil” noticiou (02/10/2013) que a cada 15 segundos uma mulher é espancada no Brasil.

A ficha caiu. O problema é a palavra “dono”. O marido da poderosa, com certeza, nem pensou nisso quando proferiu a palavra, mas é isso que está na cabeça dos machistas, por mais que os tempos mudem, que as mulheres lutem por igualdade e consigam vencer nalgumas áreas. Continuam sendo propriedade dos maridos, dos companheiros, dos machos, enfim. Eu costumo brincar, dizendo que as mulheres nunca são livres. Quando estão solteiras, morando com a família, o pai toma conta como um leão; quando se casam o marido vigia até um espirro, quando envelhece, o filho macho toma conta. Eu, em verdade, falava isso há algum tempo, mas tudo foi mudando, minha geração fez tanta revolução, o feminismo avançou e me esqueci disso.

Uma amiga, que era muito independente, contou um caso interessante que aconteceu, com ela, depois de anos e anos de casamento. Ela estava meio pensativa, aborrecida com alguma coisa e calada, sentada num canto. O marido olhou-a e perguntou-lhe: Em que está pensando? Ela, aborrecida que estava, respondeu, raivosa: Em nada. Você já tomou conta do meu corpo, não vai tomar conta do meu espírito também não, viu?  Ela mesma achou graça daquela observação boba que fez e começou a rir. Ambos riram e o aborrecimento foi-se, mas demonstra, como nós, mulheres, ainda estamos sujeitas a essas cobranças, umas mais, outras menos. Liberdade para sermos o que queremos ser muito poucas mulheres conseguem. Em primeiro lugar, está a pretensão do companheiro, seu sucesso, sua carreira e ai daquela que não quiser segui-lo. Receberá todas as reprimendas da sociedade burguesa, conservadora e machista.

Mas o pior, mesmo, é a violência moral e física. Essa questão ainda não mudou muito, não. Ainda há aqueles que subjugam de tal forma a companheira que ela perde a subjetividade e mergulha numa dependência afetiva tal que, embora desrespeitada moral ou fisicamente, apega-se de tal forma ao agressor, que não consegue desvencilhar-se, mesmo com todo o sofrimento por que passa. O egoísmo travestido de amor, primeiro conquista, seduz, para, depois, usar a pessoa seduzida como se usa um objeto.

 Em entrevista à jornalista Mônica Bergamo, Eleonora Menicucci, Ministra da Secretaria Especial de Política para Mulheres afirma que a lei Maria da penha é um sucesso. A jornalista demonstra e a Ministra sabe disso, que muitos criticam a lei e sua inutilidade, mostrando que homicídios contra mulheres continuam da mesma forma, com o mesmo índice. Ela contesta a crítica e diz o seguinte: “Temos uma cultura patriarcal muito forte, da posse do corpo da mulher. As mulheres tinham dificuldade de romper esse ciclo de violência porque não tinham a porta de saída, que é a autonomia econômica, a possibilidade de entrar no mercado de trabalho. Agora elas têm, e têm também o aparato legal para combater a violência. Mas não se muda uma mentalidade de quatro séculos em sete anos. A lei não faz milagre. Mas a Maria da Penha é um "chutezinho" para o começo do fim da impunidade”.  

Se é só um “chutezinho”, como pode ser um sucesso?

Já havia encerrado esta crônica quando leio no “A Gazeta”( 04/04/2014) um artigo de Marlusse Daher, sob o título “Ainda uma falácia”, justamente para falar da “famosa” lei Maria da Penha que, segundo a autora, não trouxe qualquer novidade, “botou a boca no trombone, mas o trombone não soa, lá onde mora Maria de Qualquer Santa, que mora com os filhos, que é adepta da economia solidária”...” e teve sua casa invadida pelo ex-marido, espancada por ele, viu os filhos terem igual sorte e ainda debochar de todos.”

Pois é. A Lei Maria da Penha aí está, delegacias da mulher foram instaladas, o famoso botão do pânico foi criado e alardeado por jornais, revistas, televisão. Até ganhou o prêmio Inovare da Associação dos Magistrados Brasileiros. A violência continua, entretanto. O Brasil do imaginário, de leis bonitas, desconectado do Brasil real, ainda perturba nosso sossego, não sabemos por quanto tempo.

Pelo menos no que diz respeito à igualdade, em que pesem as conquistas femininas, muito homem ainda continua agindo como se fosse dono da mulher. Verdade incontestável.

Ô, sina!

Maria Francisca – outubro de 2013.

 

quinta-feira, 12 de junho de 2014

O espelho, a face e os cabelos


O espelho, a face e os cabelos.

 
Hoje fiquei um tempão pensando na Cecília Meireles. O que, aliás, não é novidade alguma, porque, com ela, comecei a gostar de poesia, recitando: “Troc…  troc…  troc…  troc…ligeirinhos, ligeirinhos, troc…  troc…  troc…  troc…vão cantando os tamanquinhos…” Para completar, a bela Cecília é minha patrona na Academia de Letras de Vila Velha. 

Hoje, pensei mais, porque estava me achando horrível. Meu rosto, meus cabelos, tudo feio. Ia num espelho, credo! Ia noutro, credo! Eu estava a ponto de achar, ao contrário de Narciso, feio o espelho. Até que achei um daqueles pequenos, meio no escurinho, onde fiquei menos feia e me conformei, aliás, fiquei feliz com meu autoengano, arrumei-me mais, e saí para o compromisso dominical.

Ai, lembrei-me de uma crônica que li no jornal “Pampulha”, de Belo Horizonte, em que a autora falou do ocrinho. Ela falou ocrinho mesmo. Trata-se daqueles óculos pequeninos que começamos a usar, quando não conseguimos enxergar de perto e já virou costume as pessoas brincarem que não enxergam porque os braços ficaram curtos. Ela falava de uma amiga que não revelava de jeito nenhum que usava aqueles tais ocrinhos, porque denunciaria sua idade. Uma interessante crônica e ela tem razão. As mulheres, principalmente, preocupam-se muito com a idade. Nossa sociedade é muito cruel com as mulheres. Elas não podem ter cabelos brancos, não podem usar ocrinhos, não podem ser gordas, ou melhor, têm que ter corpo de modelo (algum tempo atrás, precisava ter corpo de miss). Ao contrário, homens com cabelos brancos é charme, com óculos ninguém se incomoda, pessoa alguma lhe cobra corpo de bailarino e por aí vai.

Nós, por nossa vez, colaboramos para que essa escravidão continue. Aceitamos que temos que pintar os cabelos tão logo uma mechazinha teima em aparecer entre os fios escuros ou loiros. E quando alguma mulher resolve ficar de cabelos brancos, as amigas implicam tanto que ela se rende e lá se vai sua autonomia. Passa a viver segundo o que querem os outros e o que pensam dela.

Quanto ao tal ocrinho, nem posso dizer isso, porque foi a maior felicidade o dia em que usei óculos e pude ver tudo bonito e perfeito novamente. E eu nem tinha 40 anos, mas a vista degenerou-se muito cedo e eu não conseguia ler direito os jornais. Estava perdendo o gosto pela leitura.  Daí a minha alegria. Só tive dificuldade quando necessitei usar as lentes para longe também. Foi um sofrimento. Não me adaptei aos óculos multifocais e o jeito foi colocar lentes de contato, uma maravilha da tecnologia. Estão cada vez melhores, portanto, uso-as sempre, muito feliz.

Mas quanto aos cabelos...Pinto-os sempre, preocupo-me com os fios rebeldes que teimam em embranquecer. Sou escrava da tintura, mas já estou me programando para a liberdade nesse item também. Mas me recuso a clarear os cabelos, isso recuso, mesmo. E digo que não quero ficar de uniforme, já que as velhas todas tem cabelo claro. Não há uma brincadeira que diz que mulheres não envelhecem, ficam loiras?

Hoje, procurando espelhos para tentar ver qual me mostrava um pouquinho, só um pouquinho, por favor, mais jovem, declamei baixinho, na maior tristeza, não nego, com Cecília e como Cecília:

Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra. Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: Em que espelho ficou perdida a minha face?”

É isto, Cecília, vamos seguindo a vida alegre ou tristemente e não percebemos as mudanças que vão se acumulando no nosso corpo, nos nossos olhos, nos nossos cabelos, nos nossos ossos, enfim, na nossa face jovem que se perdeu no tempo, faz tempo.

E não há espelho que dê jeito. A menos que se especialize em autoengano e se busque sempre, como fiz hoje, mas só por hoje, prometo, um espelho no escurinho.

 
Maria Francisca – novembro de 2013.

A lua e o sorriso


Tinha uma lua no céu. Uma lua de nada. Fininha...

Um céu tão grande, tão azul e aquela luazinha lá no alto, sem qualquer estrela por perto. Reinava absoluta e solitária.  Tanto olhei que ela sorriu. Não acreditei. Olhei de novo. Certeza. Estava sorrindo. Fixei o olhar. Já não era a lua que sorria. Era Paulo Merçon. Um sorriso tranquilo, inocente. Parecia feliz. Eu gosto de lua. Estou sempre à procura de uma lua no céu. Poetas gostam de lua. Tanto gosta que “vê a lua que ninguém vê”. Deve ser por isso que Paulo estava sorrindo. Estava dentro da lua.

 Fiquei ali parada, esperando que dissesse algo. Silêncio. Só o sorriso. Parecia me provocar. Quem sabe ele declamaria um poema, daqueles lindos que tão bem sabe compor. Poderia ser “Som do crepúsculo”. E fui falando baixinho, na esperança que completasse: Imagine um poema que terminasse em eterno movimento, uma onda debruçada no mar, um giro estático. Nada. Iniciei outro: “Um espelho é polir de instante a rocha invisível do tempo”. Nada, ainda. Só o brilho, o sorriso e o silêncio.

Agora, o sorriso ficou triste. Por que, Paulo? Converse um pouco comigo, pedi. Nada de resposta. Silêncio total. Continuei olhando, esperando, mas o céu começou a escurecer e meus olhos foram se fechando.

De madrugada, acordo sobressaltada, corro à janela.

Nem lua, nem sorriso, nem Paulo.

Fiquei com saudades do poeta.

 
Maria Francisca – Gramado, 02 de maio de 2014.

sábado, 26 de abril de 2014

Há lua de vez em quando


Há lua de vez em quando...

 

Os grilos não cantam mais, diz Fernando Sabino, numa antiga crônica (e põe antiga nisso!) publicada em 1941.

Pois é. Hoje, não há grilos, nem vagalumes, nem lua, nem estrelas, nem barulho de mar. Tudo engolido pelos barulhos urbanos, pelas luzes artificiais. Fico sempre a pensar sobre isso. Acordava à noite e ficava ouvindo o barulho do mar, das ondas quebrando na areia. Ia à varanda, para ver as estrelas no céu. De madrugada, os passarinhos me acordavam. E isso não acontecia em 1941, não. É de pouco tempo: uns dez anos, no máximo. Construíram tanto prédio na Praia da Costa...

São tantos os carros que trafegam pelas ruas, que a Prefeitura teve que improvisar uma outra pista na beira das calçadas. E os carros com seus motoristas apressados, intransigentes ou inconsequentes, não sei bem, passam nessa pista como se ela tivesse sido construída para seu exclusivo deleite e disparam em alta velocidade, tirando o sossego das pessoas e cortando todos os barulhos que faz uma cidade ter aquele ar pacífico: grilos, passarinhos, ondas de mar. E as luzes que tentam proteger-nos dos perigos das cidades, tiram-nos o brilho das estrelas e da lua. Tiram-nos, também, a visão dos vagalumes (dos poemas de Fagundes Varela: “Quem és tu, pobre vivente, que vagas triste, sozinho, Que tens os raios da estrela, E as asas do passarinho? A noite é negra, raivosos os ventos sopram do sul. Não temes, doido, que apaguem a tua lanterna azul?”(...) ou aquele vagalume da fábula, que tanto brilhou que inflamou a ira invejosa da cobra).

Mas nós também temos culpa.  Com nossa pressa diária, querendo estar conectados com o mundo tecnológico, com ânsia de informação, esquecemo-nos até de olhar para o céu. Como disse o cientista Marcelo Gleiser, para a maioria das pessoas a natureza é um conceito, algo que existe lá longe, nas fotos que vemos nas revistas, ou nos vídeos do YouTube e especiais de TV.

Se, de um lado, as cidades modernas atrapalham, de outro, o homem moderno, com celular de última geração à mão, conecta-se com o mundo e desconecta-se da natureza.

Mas hoje, privilégio meu, tudo pareceu mudar, pelo menos num ponto.  Não é que, insone, levantei-me de madrugada, com intenção de ler alguma coisa, e vi enorme clarão entrando pela janela do escritório? Pensei: algum vizinho, insone também, acendeu as luzes e elas refletem aqui. Mas de qual edifício iria “brotar” essa luz tão intensa? Parecia sair de perto, tão forte.

Fiquei até com um pouco de medo. Que será isso, meu Deus? De onde vem essa luz? Fui chegando de mansinho, devagar, espiando de longe, fui entrando no escritório e no “domínio” da luz, e vi. Vinha do céu. Do céu. Nem dava para acreditar. Uma enorme lua espalhava luz por sobre os prédios e entrava pela minha janela, iluminando tudo.

 Bendita seja, murmurei. E fiquei parada. Como que extasiada por aquela maravilha da natureza. Ou seria de Deus? Dá na mesma, pensei, se a natureza é de Deus. (“No princípio, Deus criou o céu e a terra. Ora, a terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, e um vento de Deus pairava sobre as águas. Deus disse: ‘haja luz’ e houve luz. Deus viu que a luz era boa e separou a luz e as trevas. Deus chamou à luz dia e às trevas ‘noite’”. Gn 1, 1-5).

Olhei a lua e pensei: Será que, depois, Deus teve pena da noite que criou e resolveu dar-lhe lua e estrelas para que pudesse, de vez em quando, deixar de ser meramente trevas? Só de vez em quando, para ela não ficar triste, é certo, porque lua clara temos por pouco tempo. E não estou falando das cidades agora, não. Em qualquer lugar há as fases da lua. Há eclipses, há nuvens escuras que cortam o brilho da lua. Cortam as estrelas, escondendo-as na sua espessura malvada...

E por falar nisso, cadê a lua?

Há apenas uma grossa nuvem passeando faceira no céu...

Maria Francisca - novembro de 2013.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

É A VOVÓ!



Hoje (31/01/2014), andando pelo calçadão da Praia de Itaparica, vi um senhor com uma menininha, tomando banho de chuveiro, naqueles chuveirões de praia, que jorram um aguaceiro e faz a alegria da criançada.

Ela ria e enfiava a cabecinha debaixo do chuveiro. Eu que não posso ver criança que vou logo procurando falar alguma coisa, parei e disse: Que delícia, hein, fofinha? Que banho gostoso! Ela me olhou, sorriu e tornou e se enfiar debaixo do chuveiro. O homem, que tinha a criança ao colo, tão logo recomecei a andar, disse para a menininha, bem alto: É a vovó. Dá thau para ela. Eu, alegremente, parei, olhei de novo e fiz o gesto de adeus para a criança e disse: lindinha!

No momento, não pensei nada demais, porque tenho cinco netos e adoro quando alguma criança me chama de vovó.  Depois, fui achando aquilo interessante, porque as pessoas, normalmente, não falam para as crianças que as pessoas estranhas que encontram são avós, mas apenas tias, porque têm medo de ofender, já que mulheres, em geral, não gostam de parecer velhas. E o tom de voz do homem me incomodou.

Fiquei matutando e aí, me toquei.  O tom era irônico, ou, talvez, pedante.  Ele deve ter pensado que brinquei com a criança para me aproximar dele. Bingo: foi isso. Ô vaidade besta!

Aí, comecei a rir sozinha, porque me lembrei de três episódios parecidos, na ficção. Um, foi no filme Julgamento em Nuremberg, quando a personagem Dan Haywood (Juiz-chefe do Tribunal), na atuação de Spencer Tracy, chegou a uma lanchonete russa e viu uma moça bonita tomando algo. Aproximou-se dela, todo faceiro, conversaram um pouco, ela sorria. Quando saiu, disse-lhe alguma coisa. Como ele não entendeu a língua, perguntou à garçonete: O que ela disse? A moça respondeu: Ela disse thau, Vovô!...

Outro episódio é de uma crônica do Rubem Alves. Diz ele que estava no trem, em pé e olhava pra lá e pra cá, como todo escritor, porque fica a observar tudo e reparou que uma bela moça, que estava sentada, também lançava olhares como ele, por todos os lados. Num momento, seus olhares se cruzaram, a moça sorriu e ele ficou todo feliz. Momento seguinte, decepção, a moça levantou-se para dar-lhe o lugar.

E, por último, o conhecido Tio Sukita, que deve ter se inspirado no Rubem ou no filme Nuremberg. Uma moça bonita entra num elevador, tomando um refrigerante e encontra alí um homem de meia idade, que fica tentando conquistar a menina, até que ela lhe diz: Tio, aperta o 21 para mim...

A diferença, meu senhor, é que estamos vivendo. Isso é real e não ficção. Eu estava prestando atenção apenas na criança... Não sei se você era bonito, feio, velho, ou novo e o meu sorriso para a criança, após ser chamada de vovó, deve ter-lhe mostrado isso.

Seria muito engraçado se eu, no alto dos meus 65 anos, ficasse por aí tentando conquistar homens, por meio de criancinhas graciosas...

Tomara que tenha acordado para sua idiotice.

Maria Francisca – 31/01/2014.