domingo, 13 de abril de 2014

A medida do homem



Esses dias, conversando com Daniel, o neto de sete anos, ele me contava as peripécias de um personagem de desenho animado, cujo nome esqueci, e terminou a história afirmando que o personagem é imortal. Eu disse: Não há ninguém imortal, Dani. Só no mundo da imaginação. Ele respondeu: Há, sim, Jesus.  E continuou: Todos que morrem ficam imortais. Quem lhe disse isso? Eu mesmo, respondeu. Ele sempre fala dessa forma, quando diz algo inusitado e eu faço essa pergunta. Deve ter escutado alguma conversa e fez as deduções, esperto como ele é, pensei.

Continuamos a discussão sobre imortalidade, procurando lembrar os ancestrais já falecidos e tornados imortais.
Depois, fiquei pensando muito sobre aquela conversa e achando interessante interpretar a morte como caminho para a imortalidade. Bem verdade que é um paradoxo, mas é também um consolo. Vai ao encontro da ideia de ressurreição, tal qual ensinam as escrituras. É nossa crença e nossa esperança como cristãos.

Incrível, mas um dia após ouvir essa bela lição do neto, surpreendi-me com a leitura de uma citação de Paulo, falando em ressurreição, justamente como disse o Daniel. Podemos ver em I Coríntios, 15,54: Quando este corpo corruptível estiver revestido da incorruptibilidade, e quando este corpo mortal estiver revestido da imortalidade, então se cumprirá a palavra da Escritura.

Será que, por crermos na ressurreição, aceitamos a morte?
Há alguns anos, eu, adoentada, aborrecida, pensava na morte e ficava muito triste, principalmente após a perda inesperada de um amigo.  Aí, sonhei que havia morrido. Via-me ali no caixão e, ao redor, muita gente que olhava, olhava, ninguém falava nada, ao menos se eu era uma boa pessoa, essas coisas que falam num velório. Ninguém chorava. Eu, cadáver ali presente e vendo tudo, já intrigada com aquilo, mas ficava quietinha no caixão, como deve ficar um defunto. De repente, aparece ao meu lado uma menina e começa e esfregar o olho, que lacrimejava. Alguém lhe pergunta algo bem baixinho, talvez se me conhecia. Escutei bem a resposta: Meus olhos estão ardendo, por causa da fumaça das velas. Eu, defunto, fiquei com muita raiva. Como é que uma pessoa como eu, importante, pensei, morre e ninguém se importa? E aí, o ego soberbo falou mais alto. Eu, mesmo defunto, levantei-me do caixão e fui embora, resmungando: Já que ninguém chora, não vou morrer. Só Freud explica. Ou não explica?

Por meio desse sonho, conclui: o que nos move e amedronta, ao mesmo tempo, é a certeza do esquecimento das pessoas. A morte é um insulto ao eu. A vida continua mesmo sem mim. Mas, como disse Mathias Jung, a vida já não existia antes de mim? Outros afetos surgem, outros interesses aparecem e os mortos são mortos, devem ser deixados em paz. Isso é importante para nossa saúde, porque a vida continua apesar de tudo. Quem age de outra forma, acaba adoecendo, como a personagem Maureen, de Rachel Joyce, que demorou 20 anos para, efetivamente, enterrar o filho David que falecera repentinamente. Falava com ele, telefonava-lhe reclamava da saudade, pedia a visita do jovem, como se o filho ainda vivesse. A duras penas, conseguiu desvencilhar-se daquele fantasma e voltou a viver normalmente. Enterrar nossos mortos não impede nossas saudades das pessoas queridas que estão no Infinito, mas, com a consciência de que ficaram imortais e estão bem distante de nós, os que teimamos  em permanecer mortais. Com a morte inicia-se uma nova era. Para trás estão os momentos vividos que não voltam mais. As possibilidades de recomeço findaram.
O único ser consciente de sua finitude é o homem. Hoje, quando penso na morte, é sempre com este autoalerta: somos finitos. Essa ideia conduz ao desejo de fazer tudo que é necessário, antes que a “foicinha” nos pegue, procurando lembrar sempre este mundo como prenúncio da vida eterna. Então, que procuremos torná-lo melhor.

 O problema é querermos aventura, sempre, mesmo os menos jovens, porque é quase uma obrigação fazer coisas estupendas e exibir-se. Se entendermos, entretanto, a pura aventura como uma eterna tentação, talvez possamos pensar na outra vida como mais consistente e mais verdadeira, no dizer de Luiz Paulo Horta, jornalista e escritor, recentemente falecido. Pensando nisso, apesar de apegada à vida, senti-me consolada, vendo, no caixão, um amigo muito querido, meu compadre Eliezer. A vida dele foi um exemplo. Não se deixou levar por simples aventuras e, com certeza, seu corpo tornou-se incorruptível e reside imortal entre os imortais.

É certo que consola, e muito, crer na ressurreição e na imortalidade, mas ser apegado à vida é da nossa natureza. Quem não quer viver? Quem quer ser “imortal”, na linguagem do Daniel que, agora descobri ser a linguagem bíblica? É como disse João Cabral de Melo Neto, num belo poema:
“Podeis aprender que o homem
É sempre a melhor medida.
Mais: que a medida do homem
Não é a morte, mas a vida”.

 
Maria Francisca – alvorecer de 2014.

 




 

4 comentários:

  1. Lindo, prático e suficientemente esclarecedor! Gostei muito! Abraços, Silvana Jacobina.

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  2. Francisca, minha amiga,que surpresa boa o seu blog!
    Descobri há pouco tempo, mas já virei um leitor voraz.
    Você, como sempre, com a sua sensibilidade, humor e sabedoria, toca e conquista todos que têm o privilégio de conviver com você.


    Me lembro quando te mandei uma mensagem, questionando exatamente a finitude da vida, de como ela é efêmera etc. Você me sugeriu que lesse " a medida do homem". Quando li, fiz uma reflexão e fiquei muito mais sereno, pois compreendi a sua concepção de imortalidade (do Daniel também, é claro!).

    Continue nos presenteando,compartilhando seus belos textos.

    Parabéns, "Tatuuuu" ! rsrs

    Bjão

    Matheus Pertence.




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  3. Francisca, minha amiga,que surpresa boa o seu blog!
    Descobri há pouco tempo, mas já virei um leitor voraz.
    Você, como sempre, com a sua sensibilidade, humor e sabedoria, toca e conquista todos que têm o privilégio de conviver com você.


    Me lembro quando te mandei uma mensagem, questionando exatamente a finitude da vida, de como ela é efêmera etc. Você me sugeriu que lesse " a medida do homem". Quando li, fiz uma reflexão e fiquei muito mais sereno, pois compreendi a sua concepção de imortalidade (do Daniel também, é claro!).

    Continue nos presenteando,compartilhando seus belos textos.

    Parabéns, "Tatuuuu" ! rsrs

    Bjão

    Matheus Pertence.




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  4. Francisca, minha amiga,que surpresa boa o seu blog!
    Descobri há pouco tempo, mas já virei um leitor voraz.
    Você, como sempre, com a sua sensibilidade, humor e sabedoria, toca e conquista todos que têm o privilégio de conviver com você.


    Me lembro quando te mandei uma mensagem, questionando exatamente a finitude da vida, de como ela é efêmera etc. Você me sugeriu que lesse " a medida do homem". Quando li, fiz uma reflexão e fiquei muito mais sereno, pois compreendi a sua concepção de imortalidade (do Daniel também, é claro!).

    Continue nos presenteando,compartilhando seus belos textos.

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