domingo, 17 de agosto de 2014

SEM MEDO



São cinco horas de um dia de inverno.
Os dedos já no teclado do computador, abandono rapidamente o trabalho mal iniciado, resolvo ver o nascer do dia e fico de tocaia na varanda. Está frio. Aquele ventinho do mar me provoca um leve arrepio, mas dali não arredo pé. Ainda está escuro, mas os raios de fogo na barra do céu anunciam a chegada da manhã.

Do décimo andar, olho por cima dos edifícios.  As luzes de um navio ao longe parecem tremular. Dirijo o olhar para a rua e vejo o mar, ondulando, ondulando, e aquele barulhinho de ondas rasas, contínuo me dá vontade de descer, ir lá e molhar os pés naquela água gelada. Apesar do desejo, fui ficando por ali, em doce devaneio, atenta ao fluxo e refluxo das vagas.

Um carro passou veloz, o ruído feriu meus ouvidos e tirou-me a doce contemplação. Por que não vou caminhar um pouco, se desde as quatro estou de pé? Quantas vezes não saí a caminhar, ou mesmo a correr, entre quatro e cinco horas da manhã?

Não me é permitido. A vontade turva, esmorece, e o medo fala mais alto, quando me lembro dos assaltos e dos outros tipos de violência dessas nossas cidades, pequenas ou grandes. Nem as vilas do interior, tampouco as fazendas ou sítios são poupados. E, ali mesmo, inicio um meditar solitário, num questionamento vivo e contínuo: Que estamos fazendo com nosso mundo?
O que gera violência? Pobreza? Muitos dizem que sim. Pode ser. Vemos mendigos por onde andamos. Moradores de rua, à beira de praias, sob pontes e viadutos, onde vivem em condições sub-humanas. Sujos, comendo restos catados no lixo, muitas vezes, em total promiscuidade.  É possível aguentar uma vida assim? Procuram refúgio nas drogas. Ou vão para a rua justamente porque são usuários dessa horrível praga moderna e perdem tudo, a dignidade, inclusive. Ninguém sabe o que começou primeiro.

Padre Xavier afirma que ninguém nasce bandido. As pessoas se tornam assim, segundo ele, a partir de um contexto de desamor, estrutura familiar, falta de apoio e, sobretudo, abandono nos primeiros anos de vida, da concepção à adolescência.

A pobreza pode produzir a violência, sim, mas, muitas vezes, porque a vida está vazia, sem perspectivas, sem rumo. A indigência não é somente de bens materiais. É de tudo.
Nossos meios de comunicação nada mais fazem do que incitar gastos, oferecendo todos os tipos de produtos. Empréstimos variados, sem exigência de cadastro, até para quem está denunciado no SPC, como alardeiam certas propagandas televisivas. O locutor é bonito, sorridente, encanta o público e vende a imagem de poder. É tudo muito rápido. Corra buscar seu empréstimo, dizem, subliminarmente. Pensar não se pode. Não dá tempo.

Há poucos dias, os jornais estamparam matéria em que a mãe chorava porque o filho, adolescente, fora apreendido, por assalto à mão armada. Ele disse que queria comprar um tênis. Ela, uma faxineira, havia prometido comprar o tal tênis do desejo, que custava cerca de 400 reais. Uma faxineira. Nada se disse sobre a escola desse adolescente, sobre a família, sobre esse desejo de ter aquele tênis caro, nada. Só que ele queria o tênis. Dessa forma, parece lícito roubar, simplesmente para suprir um desejo. Não importa se o bem que se pretende obter é necessário ou supérfluo. Importa ter, ter.

Diz Gilberto Dimenstein que “[...] a educação é o grande movimento abolicionista contemporâneo. É ela que garante a autonomia das pessoas, não existe forma mais grave de escravidão que a da ignorância [...]. E isso forma um círculo vicioso. Não tem boa educação, não vai ter um bom emprego, não vai conseguir dar uma boa educação para os filhos e não consegue pressionar mais pela educação”. E fala mais: “O grande papel da educação é gerar seres autônomos. Não é gerar indivíduos que saibam matemática, química e física. É gerar pessoas capazes de saber o que elas querem fazer de sua vida.

Isso é o que se chama consciência. Consciência da própria força. Consciência de que o mundo não vai acabar porque não se tem um tênis da moda. Consciência para optar entre o ser e o ter. Ou só ter o que é necessário. Consciência de que deve exigir do Poder Público o que lhe é de direito. Mais educação para todos, mais cuidado com a saúde, com os idosos, com as crianças, com o trânsito, com as ruas, com a limpeza e tudo o mais que é de responsabilidade do Governo, e ele não cumpre. Consciência para cuidar do espaço em que se vive e que é de todos e para todos.

Saint-Exupéry, em Piloto de Guerra, diz o seguinte: “É fácil formar um homem que se subordina cegamente, sem questionar, a um mestre ou líder. Por outro lado, libertá-lo, para que aprenda a ser mestre de si mesmo, é uma empreitada muito mais difícil.”

Não sei se tenho razão. Penso que, se todas as nossas crianças tivessem escola adequada, educação, com certeza, nosso mundo não seria este. Ensinar a pensar é, realmente, o maior desafio de nossas escolas, para que as crianças saibam escolher a vida que desejam levar, o caminho que desejam seguir. Assim, não correriam o risco de ser levadas por mãos inescrupulosas.

Esse é apenas um pensamento de quem não conhece muita coisa, apenas observa o que ocorre ao seu redor e o que dizem os especialistas. Com efeito, diz o Livro da Sabedoria: “Os pensamentos dos mortais são tímidos e suas reflexões incertas, porque o corpo corruptível torna pesada a alma e a tenda de argila oprime a mente que pensa.”

Por fim, espero um mundo, sem medo, onde eu possa sair de madrugada, molhar os pés no mar gelado, apreciar as ondas em contínuo fluxo e refluxo, sentir as gotículas salgadas saltando no meu corpo ou maravilhar-me com o sol brotando do mar, com toda majestade. Utopia?  Pode ser. Se esse pensamento for inútil, vale a lembrança de Galeano para quem a utopia na minha vida serve para que eu não deixe de caminhar.
 
Maria Francisca  -  agosto de 2014.

 

3 comentários:

  1. Olá Francisca,
    Li atentamente e viajei pensando nas ondas e no amanhecer... Um horário bom para poder molhar os pés e desfrutar da calmaria existente nessa hora, mas...
    Realmente, vivemos com medo de tudo e de muitos por ai. Também concordo que o marketing é extremamente cativante para o consumo cada vez maior levando pessoas a ficarem sem um tostão para obter algum prazer nas compras.
    E naturalmente a educação seria o ponto crucial para amenizar muitos problemas atuais. Também concordo que essa educação levaria as pessoas a pensarem de forma clara e objetiva. Só assim, elas seriam capazes de pensar e não deixarem se influenciar por um mundo e propostas lúdicas. Ter discernimento é a opção necessária para um crescimento.
    Beijos mil

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